31 de maio de 2007

O SALTO - parte 2


Eu estava por cima.

O carro era meu. O dinheiro era meu. A miúda era minha.
Alguém vai a pé para casa - disparei.
Acertando na “mouche”, ei-lo a arrumar a trouxa e a fazer de conta que se metia ao caminho.
Trinta quilómetros separavam-no da doçura do lar. Era uma questão de sair cedo para, a um ritmo normal, demorar seis horas a chegar.
Voltar a casa passava por alguma submissão de quem o não queria fazer a pé. Como tal, até parecia que ao mínimo deslize qualquer um dos outros teria o mesmo destino.
Não era verdade, nem eu o faria nunca.
Demorámos ainda algum tempo a arrumar a tralha e ei-los que partem. Camacho, já ia longe.
O dia terminara muito antes do entardecer.
Alguns remorsos tilintavam-me os sentidos e guiava vagarosamente, olhando com atenção a velha estrada que nos traria de volta. Esperançava-me encontrá-lo e abrir-lhe a porta do Mini, para minimizar o sucedido.
Encontrámo-lo mais à frente, espreitando-nos pelo canto do olho, sem alterar o passo e simulando não ligar à nossa proximidade.
Parei a seu lado, convidei-o a entrar mas tal não quis. O aparente orgulho aguardava um deslize de piedade e fiz-lhe a vontade. Recusado que foi o meu convite, atirei-lhe então uma nota de vinte escudos, muito dinheiro na altura, dez cêntimos hoje, que fez menção de não apanhar.
Mal o horizonte nos engoliu, voltou atrás, regurgitou o orgulho, cuspiu alegria e curvou-se aos vinte escudos.
O regresso estava principescamente assegurado.
Já perto da Sintra, uma viatura Audi, matrícula alemã novinha em folha, faz uma manobra perigosa ao ultrapassar-me. Não dei muita importância ao facto. Mais à frente voltei a encontrá-la. Seguia tão lentamente que tive de a ultrapassar. Voltou a provocar-me, repetindo a manobra. E assim foi por mais duas ou três vezes.
Já na recta do Cacém, ultrapassa-me novamente e de repente, trava. O choque foi inevitável. A pouca experiência, aliada ao nervoso da inusitada situação não teve engenho para domar o Mini e evitar o pior
Do acidente, resultaram pequenos ferimentos no Xico e danos materiais elevados, naquela amostra de carro.
Pá-tá-ti, pá-tá-tá e a discussão com o casal de emigrantes do Audi ficou-se por ali, empurradas que foram as culpas para os meus ombros.
Felizmente que o Mini estava em condições de poder circular. Voltámos à estrada e pouco depois estava na Amadora, à porta do Chafariz, duzentos metros afastado de minha casa. Por ali fiquei perto de uma hora, indiferente às pessoas que me conheciam e ali passavam.
O Zuca morava no prédio ao lado do meu. Confessei-lhe a minha ideia se algo corresse mal e pediu para me acompanhar, se esse fosse o caso.
Zuca há muito que perdera o pai. A mãe, era uma santa mulher e não interferia na vida do filho.
Pensando em como iria tornear o problema, resolvi ir para casa e falar com o meu progenitor.
Estou a vê-lo ainda quando em casa entrei, sentado num pequeno banco, martelo na mão, tentando colocar novos saltos nuns sapatos,
Levantou a cabeça, fixou-me nos olhos e nada disse. Não imaginava sequer que eu tinha tido um acidente.
Preparando-o para o pior, alvitrei:
- Pai, vamos falar de homem para homem!
De homem para homem? – repete e questiona ele. Já vais ver o que é falar de homem para homem!
Levanta-se e de martelo em riste, dirige-se para mim em tom ameaçador. Ficou-se por ali, porque bati com a porta e escapei-me a tempo.
Desci as escadas do primeiro andar, já a delimitar as fronteiras do resto do mundo.
Alguns momentos depois voltei a casa. O pai, continuava a martelar o sapato. O filho, a martelar um sonho.
Tomei um banho e vesti-me de fato e gravata.
As minha irmãs não estavam. A minha mãe, adorava a Deus na missa das seis.
Olhei para trás. Despedi-me de mim e parti à procura de nada.

30 de maio de 2007

O SALTO - parte 1

Zuca - Camacho - Quim - Xico Gago


- Pai, dentro de quinze dias, vou precisar que me empreste o carro!
Para que é que eu quero o carro? É que vou passar esse fim de semana a casa do Henedino, lá prós lados de Arganil.
Ele olha para mim em silêncio.
Insisto - Ó pai, vá lá, não seja assim. Tá bem, depois falamos melhor, fui dizendo eu, para a conversa não ficar no ar.
Pressupondo que era melhor não voltarmos a falar, se bem o pensei, melhor o fiz.

Vinte e um de Agosto de 1969 - Amadora.
A minha vida ia mudar nesse dia.
Peguei no carro e lá vou eu com o meu bando - Zuca, Camacho e Xico Gago.
Os planos tinham-se alterado. O Camacho, balzaquiano até às entranhas, convenceu-me a trocar o promissor fim de semana em Arganil, pelo Magoito e a substituir o anfitrião Henedino pelo hospedeiro Alberto.
Até calhava bem. A proximidade da praia do Magoito e a inexperiência da carta de condução adquirida uns dias antes, auguravam umas horas bem passadas, numa casa só para nós.
Nenhum dos meus amigos tinha carta de condução e, muito menos, carro. Todos dependiam de mim. Esse meio de transporte era, à época, uma espécie de libertação e afirmação.
Ter carro, era o clímax das noites só.
O meu velho pai, na altura mais novo do que eu sou agora, não fazia ideia que eu havia pegado no carro e sem mais delongas, meto-me à estrada.
Não fora o diabo tecê-las e negar-me esse prazer, não mais o interpelara sobre a odisseia de lhe usurpar a viatura. Achei que a decisão certa era nada lhe dizer e gozar o fim-de-semana planeado.
Como em todas as loucuras da juventude, também aqui havia um rabo de saias à mistura.
O Camacho, tinha uma paixoneta, nas escarpas da praia das Azenhas do Mar. A Isabel, miúda lindíssima, habitual veraneante, não estava tão apaixonada por ele, quanto ele por ela.
Isso deu logo azo a falarmos duma amorosa namoradinha que eu tinha tido, também ela amiga do Camacho e do Zuca, e também chamada Isabel. Camacho provocava-me então dizendo que agora a Isabel era dele. Eu adorava aquela miúda que nunca mais vi. Namorávamos ao som de Adamo e Roberto Carlos, com estes falando-nos de amor. Ainda hoje me lembro dela. Recordo ainda a sua irmã Mafalda de olhos azul celeste, a prima Virgínia e a velha avó que delas vigiava os namoricos mal contidos. Os seus pais nutriam por mim uma amizade especial e eu sentia-me desejado naquela casa. Meu velho amigo Miranda, querida D. Ana, que saudades tenho de vós! Alguns anos mais tarde ainda consegui descobri-los na sua terra natal, Vila Nova de Mui, no Minho e aí os abracei como se filho deles tivesse sido. Outro tempo, outra saudade!
Regressados à Isabel do Camacho e uma vez chegados à povoação de Azenhas do Mar, logo ali descobrimos a beldade. Camacho não me havia enganado, era linda!Havia anos que ele lhe arrastava a asa, sem no entanto conseguir voar.
Passados que foram as primeiras horas dos encantos da descoberta e de quem éramos nós, eis que, quase sem perceber como, me encontro a sós com ela dependurados na saliência duma rocha, olhando o mar e divagando sobre um “tas de choses”.
Quando já o sol já queimava, percebemos que a empatia era mútua.
O Camacho namorava com ela, mas ela não sabia.
Temendo o tempo fugir, trocámos tímidas carícias, mão na mão, olhos nos olhos. A paixão era rainha.
Aproximava-se a hora de almoço e tínhamos de regressar. Ela a casa, eu aos meus amigos. Ficámos por ali, com a promessa dum novo encontro. Breve.
Não muito longe, Camacho ruminava vingança. Planeara mesmo dar-nos um empurrãozinho para o abismo.
O frango assado fora uma boa escolha. O álcool jorrara um pouco mais.
Eu, sonhava. Zuca, esfumaçava. Xico, gaguejava. Camacho, enfadava.
Para digerir o repasto alguém sugeriu jogar-se uma cartada.
O dinheiro era escasso. As despesas dividiam-se e juntavam-se os trocos, como as migalhas em dia de fome.
Tal como no amor, também no jogo era o meu dia de sorte. Ganhei os poucos escudos que os bolsos vazios de todos albergavam por costume.
O ciúme estava no ar. A cartada no chão.
Ia saindo do jogo aquele que ia perdendo, até ficar apenas um.
Camacho foi o primeiro a sair. Colocou-se atrás de mim, acompanhando as cartas que me iam saindo e congeminando em surdina.
Pumba! Sem que percebesse como, enfiou-me um balde de alumínio cheio de água pela cabeça abaixo.
Fiquei com as cartas na mão como se nada tivesse acontecido, deixando escorrer a água que a minha farta cabeleira tinha absorvido. Palavras, nem uma.
A vingança serve-se fria, terá pensado ele.

29 de maio de 2007

Valda - te amo


Valda – te amo

Que não seja por falta de comunicação, que o amor não se propaga.

Esta frase, escrita no asfalto, – tão brasileira, como a Spuk - é o grito de quem teme.

Ama-se, na cama, no chão, na banheira, no elevador, na praia, em tudo quanto é sítio,
No asfalto, arfa-se.

Mudam os tempos, mudam as formas de amar.

27 de maio de 2007

Júlio Amaro e o apagão

(O mestre fala e os discípulos, Marcelo e Gigi, escutam)


Amaro desenhou, durante muitos anos, os almanaques de “bonecos” que toda a criançada devorava. Era o Búfalo Bill, o Cisco Kid, o Kit Carson, o Capitão Trovão, eu sei lá.
Decidiu, um dia, tentar a sorte. Convidou-me a ir com ele. Partimos!

Júlio Amaro, andava já desesperado, calcorreando as ruas do Pigale. Eu seguia atrás, pavoneando os meus vinte anos, certo que esta era a idade da razão. Amaro, mais velho outros tantos, questionava-se entre dormir na rua e ser um valente, ou dormir num hotel de duas estrelas e ser tomado por homossexual. Sim, porque dois homens, um com o dobro da idade do outro, procurarem um quarto para passar a noite, pode levar as mentes mais tacanhas a imaginar o que imaginável é.
Amaro esperava iluminar Paris com o seu traço, o seu desenho, o seu engenho. Paris era a Porta do Sol que eu ajudava a franquear.
Segundo ele, quando chegávamos a um hotel e perguntávamos se havia quartos, lia nos olhos do estalajadeiro – estes gajos são “maricas”, e o “paneleiro” é o velho. Eu era o “maricas” novo, ele, o “paneleiro” velho.
Arranjado, finalmente o quarto, num hotel rasca, mais velho que Job, entrámos nele como se estivéssemos em lua-de-mel.
Para desanuviar este tormento do meu amigo Amaro, assim que entrámos no quarto dum hotel rasca, imediatamente me estiracei em cima da cama, esgotado de cansaço.
Ele que sonhara um futuro melhor, pensando nos motivos, que o ali levaram, fumava cigarro atrás de cigarro, dando voltas ao redor da cama, para trás e para a frente, olhando o inerte miúdo que dormia o sono dos justos.
Ele assim pensava.
Com os olhos semicerrados ia observando os seus movimentos.
Apesar de ser ainda dia, era preciso ter a luz acesa para iluminar a mente.
Quando achei oportuno, a luz, apagou-se. Amaro parou, olhando para a lâmpada. Quando fez menção de se aproximar do interruptor, esta acendeu-se. Recuando no gesto, voltou a apagar-se.
Assim continuou durante algum tempo, tentando perceber como o seu gesto fazia acender e apagar a lâmpada. É que Amaro tinha no ilusionismo um dos hobbys da sua vida e pensava estar a inventar um novo truque.
Querendo impressionar-me, acorda-me e diz:
- Quim, sou um grande mágico! Vê bem isto! - Estica o braço com o punho fechado e abrindo-o na direcção da lâmpada, profere a seguinte ordem:
- Acende-te lâmpada! A lâmpada acendia-se. Repetindo o gesto insistia:
- Apaga-te lâmpada! A lâmpada, apagava-se.
Eu incrédulo e aterrado, implorei-lhe:
- Amaro, não faças isso que me estás a meter medo! Por favor!
Ele, apesar de ainda não saber como aquilo acontecia, vangloriava-se e insistia:
- Abre-te Sésamo! Fecha-te Sésamo! A luz acendia e apagava.
Não conseguindo controlar o poder que estava a exercer sobre mim, insistia em tão maquiavélica manobra.
Fartei-me. Desatei a rir, rir, rir. Rebolei no leito. Caí no chão.
Amaro, tentou ajudar-me a levantar. Não o fez, porque abri a mão e dentro dela estava a “pêra” da mesinha de cabeceira, que eu clicando, ia acendendo e apagando a lâmpada.
A montanha parira um rato. O grande mágico fora derrotado.
Ouvi das boas, mas perdoámo-nos mutuamente.

Meu querido amigo. Onde quer que estejas, estala os dedos e faz a magia de voltar para nós.

26 de maio de 2007

Recordações que os amigos deixam



Hoje estou longe.
Queria publicar um "estória", passada com o meu amigo Amaro, em Paris, no ano de 1971.
Com o tempo é curto, fica para quando chegar a Lisboa.
Até lá, aqui vos deixo o quadro, com que este pintor amigo, me retratou para a posteridade.
Guardo-o na parede nobre da minha sala.
Tinha eu vinte e um anos.

25 de maio de 2007

Sandra - cuidado comigo



Quase todos já conhecem a Spuk. (à esquerda)

Esta nossa amiga brasileira, pernambucana pra caramba, vem regularmente aqui ao blog animar um pouco as hostes, fazendo inveja aos porcalhoteanos.

Pois bem! Um dia, entrou no blog e comentou. A partir daí, e com a facilidade que eu tenho de fazer amigos, passou a haver mais proximidade.
A Spuk-Sandra, como todas as mulheres e homens-amaricados, como eu, gosta de “e-mails” românticos com bonitas fotografias e músicas a condizer.
Era e é costume, sempre que eu recebia algum “e-mail” reencaminhava-o para os amigos ou amigas, em função do seu conteúdo. Havia outros, que apagava imediatamente, porque o conteúdo já nada me dizia.
Uma manhã, ao ver a minha correspondência electrónica, deparo com um, que de facto era muito bonito e tinha por título – que mundo maravilhoso – Tratava-se de paisagens maravilhosas, que transmitiam uma serenidade imensa.
Na altura, não tive tempo para o reencaminhar e acabei por o não fazer.
Alguns dias mais tarde, recebo outro e-mail (costumo recebê-los aos montes) e vi que alguém me tinha enviado um com o mesmo título – que mundo maravilhoso.
Já conhecedor do conteúdo, nem o abri e reencaminhei-o de imediato para a Spuk, escrevendo apenas esta pequena mensagem – GOSTAS?
No dia seguinte recebo a resposta dela dizendo o seguinte: - Olá Kim, recebi o teu e-mail. Não gostei, porque não faz o meu género, mas podes continuar a mandar outros, com motivos diferentes.
Despistado como eu sou, intrigado fiquei. Fui aos “e-mails” enviados, e abri - o mundo maravilhoso – que lhe tinha enviado. Fiquei incrédulo. Quatro lindas mulheres nuas, entrelaçadas umas nas outras, em posições que o decoro me permite omitir, beijavam aqui, chupavam acolá.
Fiquei para morrer.
De imediato, respondi à Spuk, explicando-lhe o engano, desfazendo-me em desculpas, não sabendo ainda hoje, se acreditou.
Reposta a verdade dos factos, continuámos a blogar como se amigos fossemos, de longa data.
Sandrinha, me desculpa. Você é uma cara legal.
Em Setembro a gente vai rir sem artes de candomblé.

24 de maio de 2007

O Ciúme


Ciúme

Tempero de amor e sentimento de perda.
Corrói. Anula. Devora.

Desde pequeno!

23 de maio de 2007

Armas na América


Do enviado especial em Nova York - Bruno Ribeiro.


Bebé de dez meses consegue obter licença de porte de arma

Aos dez meses de idade, Howard David Ludwig ainda não fala, não come sozinho e não anda, mas as autoridades do estado norte-americano de Illinois consideraram que ele já é suficientemente crescido para ter uma licença de porte de arma. O documento exibe a fotografia da criança e um rabisco infantil no lugar da assinatura, especificando as suas medidas: 67 centímetros de altura e nove quilos de peso.
A ideia partiu do pai de Bubba – como é tratado em família –, Howard Ludwig, que preencheu a requisição online, pagou cinco dólares e obteve a licença.

A notícia é ainda mais surpreendente se considerarmos que o estado de Illinois tem das leis mais rigorosas a nível nacional no que toca ao uso de armas.

A emissão deste documento é da responsabilidade da Polícia Estadual de Illinois, cujo porta-voz especificou não haver um limite mínimo de idade para a requisição do documento.

Apesar de ter obtido o cartão que o autoriza a disparar uma arma de fogo, o pequeno Bubba terá que esperar até aos 18 anos até poder comprar uma caçadeira e até aos 21 para comprar um revólver. Mas esta imposição não será um problema para o pequeno “atirador” de fraldas. O seu avô já lhe ofereceu uma Beretta, que terá autorização legal para experimentar mal tenha forças para lhe pegar.

O pai fez saber, porém, que a arma vai ficar em casa do avô de Bubba até o rapaz completar 14 anos. “Não estou prestes a aprovar uma caçada sem supervisão”, afirmou o progenitor ao “Chicago Daily”, acrescentando que o cartão é um “adorável acrescento ao livro de memórias” de Bubba.

Esta notícia está a causar acesa polémica na blogosfera norte-americana, algumas semanas depois do massacre da Universidade de Virginia Tech, durante o qual um jovem sul-coreano matou a tiro 32 pessoas. Seung-Hui Cho conseguiu explorar uma falha nas leis estatais da Virgínia e obter armas, apesar de ter um historial de perturbações mentais.


Pai, perdoai-lhes, que não sabem o que fazem! Digo eu.

22 de maio de 2007

Alberto Vaz da Silva



























Alberto!

Meu querido fazedor de sonhos.
Entrou na minha vida como uma brisa de ar fresco e alimentou-me os sonhos que não sabia.
Com ele, aprendi a apanhar as flores da beira da estrada, a tornear as veredas nefastas e a olhar o mundo onde não chegava.
As nebulosas distantes que descortina no cosmos, devolvem-lhe a divindade que foi, em encarnação distante.
A clarividência dos factos, é tão real, que ao olhá-lo me parece ver Rá.
O olhar dele, não vislumbra os mesmos trilhos do comum mortal.
Vê no escuro, aquilo que a claridade não mostra.
As suas dissertações, iluminaram-me a alma na “manhãs submersas” da Beira, nas tardes cinzentas do Chiado e nas noites negras da estranja.
No exílio, as suas palavras chegaram-me sem a poeira da distância e o timbre da desgraça.
Ainda hoje tento descobrir, qual o Alberto que traçou a minha rota. O amigo, o advogado, o poliglota, o sábio, o iluminado, o grafólogo, o astrólogo, ou o “cosmo sapiens” dos tempos modernos.
Os Deuses, traçaram-me um caminho. O Alberto alterou-o.
Cobrar-lhe-ei, tal ousadia, no encontro marcado às portas da Babilónia.
A sabedoria que transporta, serviu também de farol, aos meus filhos, com especial incidência no Bruno - seu afilhado - mais virado para o sublime.
Alberto, o tempo e o modo do meu tempo!

Noutro modo, noutro tempo, Helena - sua mulher - de rija têmpera, feita à medida do seu molde, foi no seu breve tempo de vida, o espanto que complementou tudo o atrás dito.
Helena Vaz da Silva - eterna Presidente do Centro Nacional de Cultura - furacão que o vento levou e a cultura chorou.
“Morre cedo quem os Deuses amam”! - alguém disse um dia.

Já tarde, mas ainda a tempo, Rosaline Crepy, longeva senhora belga, pioneira da grafologia, viria a alterar a vida de Alberto, como ele alterou a minha.

Alberto disse um dia:
- A escrita é fascinante porque serve de veículo às mensagens do inconsciente.

O meu inconsciente está com ele, em permanência.

Alberto Vaz da Silva –o milagre que os meus sonhos carregam

21 de maio de 2007

Dar um mãozinha


Há coisas do “caraças”.

Quando se tem sorte na vida, tudo pode acontecer a seguir.
Vejam bem, que desde que publiquei aquele “post” onde explicava como é que me tinha saído o totoloto, já me aconteceram, mais dois episódios fabulosos.
1ª Dois dias depois da publicação, saiu-me um prémio, no Senegal, de 12.000 €. Para os levantar, só tinha de enviar uns “dados”, para Dakar.
Como sou muito conhecido naquele país, foi facílimo chegar até mim.
2ª Logo a seguir, recebo um e-mail duma senhora, da Costa do Marfim, contado-me uma “estória”, onde diz que tem 10 milhões de dólares para receber, nos Estados Unidos, por morte do seu marido, que trabalhava naquele país. Como era preciso desbloquear umas burocracias, precisava que eu “entrasse” com uma ajuda. Uma vez resolvido o problema “dava-me” 30% do dinheiro que receberia.
Já viram bem como é a sorte? Dinheiro puxa dinheiro e “mai nada”.
África chama por mim.
Vamos lá juntar os pés e dar uma mãozinha.

20 de maio de 2007





Hoje – não sei falar.
Hoje – não sei escrever.
Hoje – só sei sorrir.

Quero o meu leitinho!

18 de maio de 2007

O Bicho

Bicho-Fotociclista-Gigi-Luis-RTP Memória, tu és um poço com fundo.

Ciclista de fundo. Fundo de desespero. Fundo depressivo. Fundo de desemprego

Não Gigi, não és lixo.
Não apontes essa via, porque, tu és forte, tremendamente inteligente e culto.
Vomita as energias negativas.
Os socalcos que não transpões, só podem danificar as rodas da tua “bicla”. Não o resto.
Aquele que os fumos não vencem, a selva não devora.
Abandona as incertezas e fixa-te no querer.
Troca o “nim”, por “não” ou “sim”.
Faz da noite, a alvorada do renascer.
Não te baralhes a ti mesmo. Faz de ti, o que és.
Não cerres o olhar, nem estanques os ouvidos.
Não estás só, companheiro de lides tantas.
A pitonisa falou-me de ti

És um misto de amigo que adoro e de desconhecido, que rejeito

Levanta-te e anda!

17 de maio de 2007

Bárbara Guimarães


A festa era mundial. De confiança.


A península de Tróia, recebia naquela noite, sete centenas de convidados.
Alguns, estavam ali para receber um prémio, com pompa e circunstância.
Eu estava nesse grupo de galardoados.
Após uns lauto jantar, inicia-se um espectáculo musical apresentado pela douta Bárbara Guimarães.
Apagam-se as luzes.
Sobe o pano.
Descortina-se a silhueta dum metro e setenta e cinco de mulher.
- Boa noite minhas senhoras e meus senhores! Benvindos a este evento anual.
Aqui estou, para apresentar o programa desta noite e gostaria de convidar alguém que queira fazer o favor de me ajudar nesta tão agradável tarefa.

No enorme salão, iluminado pelo ricochete das luzes da ribalta, as cabeças iam girando à esquerda e à direita, tentando descortinar quem se propunha animar a noite.
A longilínea Bárbara, aguardava, sorridente, a chegada do apresentador mistério.
Num misto de orgulho e desapego pelo ridículo que as más-línguas costumam gerar, levanto-me e dirijo-me ao palco.
Sem preconceitos homofóbicos, subo ao altar da noite, bamboleando-me em trejeitos “abichanados”.
Na multidão cheirava-se o insólito. Aquele JR (eu) que estava no palco e tanta gente conhecia, parecia “bicha”.
- Muito bem, tenho finalmente um corajoso convidado que me vai ajudar em palco! Como se chama?
- Ju!!! - respondi a medo.
- Como? Não percebi! - ironiza a colunável.
- Juuuu!!! – repeti, arrastando o monossílabo.
Tentando disfarçar o inesperado que a minha postura lhe causava, continua.
- Pois bem Ju, aqui tem o programa desta noite pelo qual me vai poder acompanhar (o programa começava com música brasileira)
- Gosta de música brasileira?
- Quem? Eu? Deteeeeeesto!
Embaraçada com tal resposta insiste: - Não? Mas … então o Ju, gosta de quê?
- Que pergunta! Isso só eu seeeei. Mas … mas se é de música que quer saber, pois bem, só gosto de música francesa!
Cada resposta minha era acompanhada por gestos que rotulavam a olho nú, o mariconço que estava em palco.
Bárbara estava cada vez mais “barbaralhada”. Eu tinha-lhe trocado as voltas e o programa estava a sair do tradicional.
Depois, à medida que o espectáculo avançava, fui torpedeando como podia, a noite que se pretendia séria.
Sacudi o capote da homossexualidade e despi a pele da fantasia.

Voltei ao meu lugar e dum trago só, sorvi o resto do “cognac” que não havia terminado.

Da mesa presidencial, levanta-se a figura número um, dirige-se a mim e envolvendo-me num apertado abraço, exclama em tom esfuziante:
- Parabéns J.R., você é um actor do “caraças”. Parabéns!
Soubesse eu ao que ia e outro homo cantaria

Cobrei os meus minutos de glória.

16 de maio de 2007

Dinheiro



O homem, passa metade da vida a dar cabo da saúde, para arranjar dinheiro e a outra metade, a dar cabo do dinheiro para arranjar saúde.

Confúcio

Ser rico - ambição colectiva.
O ser humano quer sempre o que não tem.
Com saúde, quer dinheiro. Com dinheiro quer saúde
Quando é solteiro, quer casar. Quando casa, tem pena de não ser solteiro.
Quando é criança, quer ser homem. Quando é homem, quer voltar a ser criança.
Quando a sorte o bafeja, quer viver, quando o abandona, quer morrer.
Dinheiro, vício do mundo.
Dinheiro, ódio do pobre
Por dinheiro, engana-se, trai-se, mata-se.
Por trinta dinheiros, sofre a humanidade.

Ser rico, não é ter mais dinheiro.
Ser rico, é apenas ter menos necessidades que os outros.

Uma flor, para um pobre.

15 de maio de 2007

Lojas chinesas


A China invadiu o mundo.

Por tudo quanto é sítio e a cada esquina, encontramos uma loja chinesa.
Convenhamos que, lá encontramos pequenas “coisas” que até vale a pena comprar.
A qualidade é proporcional ao preço, mas resolve.
Nelas tenho encontrado os mais variados artigos, mas nunca tinha visto … bacalhau.
Afinal, o delicioso peixe, não é para venda, mas sim para a sua alimentação.
Tornar tudo simples e barato é o seu lema. Toca a comprar peixe cru e depois é só pô-lo na rua, ao sol a secar.
As moscas, chamam-lhe petisco. Os cães, nem tanto. Só cheiram.
Se os vizinhos não gostarem do cheiro, o problema é deles.
Fiquei a pensar, onde arranjarão eles o bacalhau fresco?

Chinesices meus amigos, chinesices!

14 de maio de 2007

O prego


Era uma vez um rapazinho que tinha um temperamento muito explosivo.
Um dia, o pai deu-lhe um saco cheio de pregos e uma tábua de madeira.
Disse-lhe então, que martelasse um prego na tábua, cada vez que perdesse a paciência com alguém.
No primeiro dia o rapaz pregou trinta pregos na tábua. Já nos dias seguintes, enquanto ia aprendendo a controlar a ira, o número de pregos martelados por dia, foi diminuindo gradualmente.
Ele foi descobrindo que dava menos trabalho controlar a ira, do que ter que ir todos os dias pregar pregos na tábua.
Finalmente chegou o dia em que não perdeu a paciência uma vez que fosse. Falou com o pai sobre seu sucesso e sobre como se sentia melhor, por não explodir com os outros. O pai sugeriu-lhe que retirasse todos os pregos da tábua e que lha trouxesse.O rapaz trouxe então a tábua, já sem os pregos, e entregou-a ao pai. Este disse-lhe:
- Estás de parabéns, filho! Mas repara nos buracos que os pregos deixaram na tábua. Nunca mais ela será como dantes. Quando falas com raiva, as tuas palavras deixam marcas como esta. Podes enfiar uma faca em alguém e depois retirá-la, e não importa quantas vezes peças desculpas - a cicatriz lá continuará.
Uma agressão verbal é tão violenta como uma agressão física.

Desculpem-me aqueles a quem deixei marcas na sua tábua!

12 de maio de 2007

Miccoli


Pensei que estava rico.

Com os cento e trinta e dois mil contos do totoloto, pensei em dar uma ajuda ao Benfica.
Se bem o pensei, melhor o fiz. Propus-me ajudar na compra do passe do Miccoli, à Juventus.
Falei com o Benfica e com o simpatiquissimo rapaz e desiludi-me com a idéia.
Afinal o meu dinheiro só dava para comprar uma perna dele. Então e a outra perna? E os braços? E a cabeça? E a genica?
Dizia-me o meu "piccoli" à saída - ó pai, cento e trinta e dois mil contos são seiscentos e sessenta mil euros. Ora isso nem sequer dá para comprar um jogador, de segunda divisão.

Acordei!


11 de maio de 2007

Saiu-me o totoloto



Há vinte anos atrás eu tinha trinta e cinco.
O Fernando, cinquenta. O Artur, quarenta e dois e o António trinta e sete.
Era o mês de Maio.

Para não destoar - tem de haver sempre um motivo - desafiei estes amigos a conhecerem, à minha maneira, outras terras, outras gentes.
O novo Mercedes do Fernando, dava-nos a certeza que poderíamos ir longe e sem percalços.
Os quatro, tínhamos comuns interesses comerciais, sem no entanto, haver grandes laços de amizade.
Vai daí, ei-los que partem, com a certeza de que parariam onde calhasse, dormiriam onde Deus quisesse e comeriam o que o diabo se lembrasse, ou a bolsa pudesse pagar.
Destino – algo incerto na Europa.
Passei toda viagem a contorcer-me de riso, pelas caricatas situações que os meus comparsas, me iam proporcionando, umas vezes, pelo ridículo, outras pela ignorância das coisas e outras ainda, pela perfídia que o meu maquiavélico cérebro congeminava.
É que, há coisa que só acontecem aos outros, mas, nem sempre é assim.

Tínhamos saído de St Tropez e seguíamos para Cannes.
Eu seguia no lugar do pendura. Guiava o Fernando. Mexia e remexia no auto-rádio. Começava a ficar impaciente de tanto nele mexericar, na esperança de encontrar uma estação de rádio portuguesa, quando eu lhe disse:
-Deixe estar, que eu procuro.
- Anuiu e cedeu-me a sua impaciência.

Fui rodando o botão, à esquerda e à direita. Após alguns minutos de fingidas tentativas e sem que ninguém percebesse, introduzi uma cassete no leitor.
Finalmente tínhamos notícias de Portugal. Acertámos em cheio, estava a dar o noticiário.
Este ano foi batido o recorde de visitantes no Feira de Santarém… blá, blá blá
Também o festival do marisco em Loulé, excedeu as expectativas, blá, blá, blá.
Por último - Totoloto – apenas um apostador acertou nos seis números mágicos. 132.000 contos, é quanto vai receber o felizardo do jackpot desta semana. O sortudo de seu nome Fernando A… G...
Com os olhos esbugalhados e meio incrédulo, tira uma mão do volante e dá-me uma palmada surda no ombro, fazendo a viatura ziguezaguear, felizmente sem consequências e grita: - deixem ouvir, deixem ouvir!
- A Antena Um, está a tentar contactar o feliz contemplado, não tendo até ao momento sido possível fazê-lo, em virtude do mesmo se encontrar ausente no estrangeiro, acompanhado por uns amigos.
- Sou eu, sou eu!!! C’um caraças, eu já estava remediado, mas agora fico bem! Logo à noite, vou telefonar à família
- disse o Fernando, completamente eufórico.
É sensacional, aqui em França, ouvir o meu nome na rádio
- murmurava para ninguém. - nem quero acreditar!
Para comemorar, vamos jantar uma mariscada regada com champagne.
Nós, os outros três, já estávamos a ganhar alguma coisa com a sorte do Fernando.
Os rostos do Artur e do António, adivinhavam-se incrédulos e circunspectos.
Fernando, estava recheado de dólares arrancados ao saco plástico da terra arenosa do seu quintal. Emprestou uma quantidade razoável a cada um de nós e nessa noite fomos obrigados a jogar uma “lerpada” com notas a cheirar a húmus.
Escudos, era coisa de pobres.
Difícil, foi chegar a madrugada.

Na manhã seguinte

- Tá lá? Tina? Sou eu, o Fernando. Então há novidades?
- Hã??? Novidades??? Tu é que deves ter novidades
- respondeu a mulher.
- Então o jackpot desta semana, saiu a alguém?
- Sei lá, parece que saiu a um gajo qualquer, porquê?

Fernando cofia o cabelo, faz um esgar de dúvida tapando o bocal do telefone e segreda-nos: - ela não me quer dizer, para eu não começar já a gastar a “massa”!
- Tá bem pronto. Olha, agora vou telefonar ao nosso filho, Um beijinho, adeus.

- Tá, filho? Olá, é o pai! Sim, por aqui está tudo a correr bem! Não, não há problema nenhum, mas estávamos aqui a pensar a quem teria saído o totoloto, esta semana.
- Olha pai, saiu a dois gajos. Tiveram uma “vaca” do caraças. Tanta bagalhoça só pra dois!
- Vá lá filho, diz a verdade. Saiu-me a mim, não foi?
O filho começou a rir e sempre foi dizendo: - não foi nada a si que saiu, pai! Quando cá chegar, vai ver!
Fernando era um poço de nervos. As dúvidas eram muitas, as certezas, apenas as ouvidas no noticiário.
Deixou ainda escapar: - Está tudo mal combinado. A minha mulher diz que o totoloto, saiu a um; o meu filho, diz que saiu a dois. Eles não me querem dizer.
- Calma aí -
diz o Artur. - Nós os quatro jogamos todas as semanas um totoloto à sociedade, por acaso em nome do Fernando e nada me diz que o prémio não seja nosso. Se a sua família diz, que não lhe saiu nada, é porque foi então a nós que saiu.
Estava instalada a confusão.
É meu, é teu, é nosso. Grande pandemónio!
Eu ria, ria, ria. - De que ri você? - Pergunta o António. – É dos nervos! É que eu também acho que o prémio é nosso e não consigo controlar-me - respondi.
Eu, continuava a comportar-me como se os milhões fossem nossos e alvitrei.
- Vamos, mas é telefonar pró meu escritório e perguntar à Madalena, pois é ela que preenche o nosso totoloto!
Comecei a ficar apreensivo e fui atirando achas para a fogueira. – É pá, eu acho que devíamos, cada um, dar 1.000 contos às miúdas lá do escritório!
Fernando deixou logo ali cair em saco roto, a minha estapafúrdia ideia. – Olha este! Você faça contas com o seu dinheiro e deixe lá o dos outros!
Fernando, já começara a acreditar que o dinheiro era nosso, não dele.
Eu, já não tinha mais lágrimas. O riso exagerado, havia-as todas consumido.
Do escritório, informaram não termos sido nós os contemplados.
Ninguém entendia como fora possível ter ouvido aquela notícia na rádio.
E assim foi sendo, durante mais cinco dias, de incertezas mais que muitas. O que se passou nesses dias, só por si, daria para escrever um best-seller.
Deitavam-se, sonhavam e acordavam a falar do totoloto.
Comecei a ter pena de mim. Um rico, pobre homem.

Ao regressarmos a Portugal, parámos na Guarda para jantar. A medo - Fernando ainda acreditava - perguntou ao estalajadeiro: - Amigo, o jackpot do totoloto, saiu a quantos? – A um! - Respondeu o homem.
– A esperança, reacendeu-se, teria pensado ele.
Alguma horas depois, já em Lisboa, cada um tomou seu rumo, cogitando, nas voltas que a vida dá.
Uns meses mais tarde - não perceberam como - mas souberam ter sido uma brincadeira minha.
Ter-me-ão perdoado?
Uma cassete, previamente gravada, tinha conseguido fazer com que aqueles homens não acreditassem em bruxas, mas … pero que las hay, hay.

10 de maio de 2007

D.Irene


Passou um ano.

Não vou esquecer nunca a sua voz calma e o olhar cândido.
Não esqueço também a visita que me fez, antes do fim.
Não passa depressa o tempo. Não passa o que a saudade sente.
Sentada na minha secretária, fotografei-a para a eternidade.
Parabéns aos filhos, Júlio César e Quim, pela maravilhosa mãe que tiveram.
O Abel, vai gostar de ler-me.

Não sou o seu Quim, D. Irene! Sou o outro!
Dizia-lhe eu, de mansinho.

9 de maio de 2007

Cuidado com o Sol


Agora que o calor ameaça chegar, é tempo de lembrar que o sol e a praia, são os grandes amigos do homem.
Além da visão, sempre agradável, dum corpo bonito, conseguem ao mesmo tempo, oferecer-nos pequenos biscoitos de chocolate, vindos sabe-se lá de onde.
Dispam-se, que a praia está aí.

Vanessa Fernandes


Fazia tempo que Portugal não tinha uma campeã desta estirpe.
A miúda humilde, tornou-se humilde mulher.
A sua classe deixou-me boquiaberto.
Já não me lembrava, como éramos grandes
A nadar, a “biciclar” e a correr, Vanessa é para mim, a maior campeã de sempre!

Vou nessa, Vanessa!

7 de maio de 2007

O Chora


No início dos anos trinta, aqui prós lados da Porcalhota, começaram a circular estes luxuosos mostrengos, em substituição duma traquitana, puxada por quatro cavalos, que, para além de passageiros, transportava também o correio.
Eram conhecidos, pelo nome de “carros do Chora.”
A designação devia-se ao facto, do seu proprietário, Eduardo Jorge, se lamentar sempre, que não tinha lucros.
Faziam a delícia da miudagem, e o desenrasca dos bolsos vazios, já que a escada existente na parte traseira e superior a isso convidava.
Não neste, mas noutros, mais recentes, algumas vezes neles me pendurei e outros tantos sustos apanhei.
Pelos bancos desta relíquia, passaram os primeiros colonos, maciçamente alentejanos, no desbravar da Porcalhota.
Longe de mim imaginar que viria a passar metade da minha vida e a escrever estas memórias, no preciso local onde se situava a garagem­­­­­­­­, o terminal e a sede do Chora.
Solte-se a memória dos nossos egrégios avós.

6 de maio de 2007

Dia da Mãe


Mãe

No último terço da vida, chamei-te Ana.
Julgava ser o nome mais lindo do mundo.
Quando já te não tinha, voltei a chamar-te mãe.
Evoco hoje a tua memória e invocarei sempre as tuas preces.
Sei que te não perdi. Estás apenas, um pouco mais longe.
Agradeço à tua mãe, a mãe que ela me deu.
Descobri tarde, o mais belo e supremo nome. MÃE!
Minha querida Ana, minha maravilhosa mãe. Tenho saudades de ti.

A todas as mães do mundo, a minha vénia!
Mãe - a profissão mais díficil do mundo.

5 de maio de 2007

Crónicas de Paris - Sylvie


Passamos a vida a fazer asneiras, julgando tudo saber e ao chegar aqui, sabemos nada saber.
Pior ainda, é aos 18 anos julgarmos ser donos do mundo.

Não eram ainda decorridos trinta dias, que eu chegara a Paris. O meu saudoso amigo Zeca, (Martin, em francês) andava entusiasmadíssimo em mostrar-me “la nuit parisienne”.
Desejoso de descobrir o que estava para lá da noite, levou-me à discoteca que habitualmente frequentava.
O Touquet, ficava ao fundo dos Campos Elíseos, junto à Concórdia, e viria tornar-se na minha segunda casa.
Entrámos e vi a noite fervilhar de corpos entrelaçados na média luz. O tipo de música, ora mexida ora lenta, mudava de trinta em trinta minutos. Quando alguém dançava com alguém, já sabia que, em princípio seria por meia hora, o equivalente a mais ou menos oito melodias, bastante esticadas.
Fiquei algum tempo a observar e a perceber qual era ali o meu papel.
O Zeca-Martin, que lá vivia desde os treze anos, tinha-me prevenido que quando alguma miúda aceitasse dançar comigo, isso era meio caminho andado para acabar a noite no seu leito. Para isso era fundamental que a beijasse no segundo ou terceiro “slow”. Passada essa fase, sem o fazer, facilmente seria abandonado na pista.
Não conseguindo tirar isso da minha cabeça, já que em Lisboa as coisas não funcionavam bem assim, fui olhando à minha volta e todas as caras me pareciam bonitas.
Meio aflito mas demonstrando estar à vontade na matéria, avancei para uns olhos que me aceitavam. E aceitaram. Um aceno de cabeça resolveu a minha incerteza e caminhámos para a pista. Encostou a cabeça no meu ombro e perdemo-nos no meio da “foule”.
Charles Aznavour, cantava “Que c’est triste Venise”. Eu pensava em "Comment te dire adieu"!
Inebriado por aquele momento, fui-me empurrando para a decisão de a beijar, tal era o ritual do momento.
Tem de ser agora, pensei. Estávamos na terceira música e eu tinha de beijá-la. As minhas mãos que timidamente evitavam as partes proibidas do seu corpo, acariciaram-lhe o rosto e ... os seus lábios não fugiram dos meus.
Dentro de mim ribombava o trovão supremo da glória. O mundo era meu. Pobre jovem que se contentava com pouco.
Num beijo depois de outro e outro ainda, assim continuámos até acabar aquela roda de embalar.
Sentámo-nos, mão na mão, e começámos a descobrir-nos como quem encontrar-se quer. 

As horas foram entrando pela manhã e divagado o que havia para divagar, chegou a hora da despedida.
Não sabendo bem como descalçar aquela bota e precisando de alimentar diálogo, perguntei-lhe em surdina: 

- amanhã podemos voltar a encontrar-nos? 
Olhou para mim e meio atónita, dispara de seguida: 
- mas … não vais dormir comigo esta noite? 
Qual principiante atrapalhado, respondi: 
- claro que sim, mas … sabes, é que … humm!!! Pois claro que vou!!!
Se por ali houvesse um buraco, nele me teria metido. Não fora a média luz do recinto, a minha ruborizada face teria denunciado o quão imberbe me senti.
Tentando demonstrar o à vontade que não tinha, avancei depois para os seus lençóis, qual garanhão que não era.
O dono do mundo que eu pensara ser, não passava afinal dum inocente menino, com tudo para descobrir.
Merci, Sylvie!

2 de maio de 2007

As Romanas




Aqui, onde maioritariamente se fala de homens, não resisto hoje, a deixar de publicar esta foto, encontrada na poeira do tempo.
Às lindíssimas romanas, Catarina, Mariana e Francisca, a recordação dum instante.
Do intruso, não falo. Julgo tratar-se do arlequim.

1 de maio de 2007

Crónicas de viagem


Corria o ano de 1988.
O Benfica ia jogar a final da Taça dos Campeões Europeus em Estugarda-Alemanha e esse foi o mote, para desafiar alguns amigos, virgens em saídas extra muros, a ir dar um voltinha.
Claro que, uma expedição destas, organizada por mim e pelo Gigi, só podia ter outro fim que não o de assistir “in loco” à referida final.
Vagabundeámos então pela Europa e não vimos o jogo. Contarei brevemente, como tudo aconteceu.
Como diria o Gigi – 7 mil kms, 7 países, 7 dias.
Nós, éramos oito, mas parecíamos mais, pois alguns, comiam, bebiam e chateavam, por dois.
O Taxú, era do Sporting e era um deles. A chatear.
Era este, o nome de guerra do visado de hoje, na altura meu cunhado, casado com a minha irmã.
Sempre perdido de amores por qualquer rabo de saias, o Taxú, passou toda a viagem a alimentar um amor clandestino que deixara em Lisboa. Umas vezes, por telefone, outras através do envio de bonitos postais ilustrados com mensagens de amor.
A menina, ao que ele dizia, era poliglota, logo era de bom tom, botar figura, com mensagens na língua dos países, por onde íamos passando e aos quais os postais faziam alusão.
Como o Taxú não falava qualquer língua, que não a sua, pediu-me ajuda. Acedi a esse pedido, aldrabando as mensagens amorosas, a meu bel-prazer.
Na Alemanha, inventei meia dúzia de palavras que nem eu próprio sabia o significado e traduzi-lhe assim, aquilo que escrevi: - Só penso em ti. Tenho saudades tuas, amor.
Chegámos a Paris e extasiado pelo romantismo que a Torre Eifel sugestionava, pediu-me uma vez mais, umas palavrinhas, agora em francês, para a amada.
Escrevi então: “Au sommet de Paris, je me souviens de toi et je me suis aperçu que, loin des yeux, loin du coeur! (No tecto de Paris, lembro-me de ti e apercebi-me que, longe da vista, longe do coração.
Então pá, traduz lá o que escreveste – disse ele empolgado pela experiência! Do meu coração para o teu, através dos céus de Paris. Gostas?.
Abriu os braços de contente, cerrou-os à minha volta e exclamou: - PORRA QUIM, AINDA ÉS MAIS ROMÂNTICO DO QUE EU!!!
Gigi, que havia topado o "engate", piscou-me o olho e cravámos-lhe um geladito, logo ali no homem do carrossel ao lado.
Viria a divorciar-se da minha irmã e a casar, com a amada dos céus de Paris.
Ainda hoje dou comigo a pensar; ou ela não percebia nada de francês ou então o amor é mesmo cego.