27 de maio de 2007

Júlio Amaro e o apagão

(O mestre fala e os discípulos, Marcelo e Gigi, escutam)


Amaro desenhou, durante muitos anos, os almanaques de “bonecos” que toda a criançada devorava. Era o Búfalo Bill, o Cisco Kid, o Kit Carson, o Capitão Trovão, eu sei lá.
Decidiu, um dia, tentar a sorte. Convidou-me a ir com ele. Partimos!

Júlio Amaro, andava já desesperado, calcorreando as ruas do Pigale. Eu seguia atrás, pavoneando os meus vinte anos, certo que esta era a idade da razão. Amaro, mais velho outros tantos, questionava-se entre dormir na rua e ser um valente, ou dormir num hotel de duas estrelas e ser tomado por homossexual. Sim, porque dois homens, um com o dobro da idade do outro, procurarem um quarto para passar a noite, pode levar as mentes mais tacanhas a imaginar o que imaginável é.
Amaro esperava iluminar Paris com o seu traço, o seu desenho, o seu engenho. Paris era a Porta do Sol que eu ajudava a franquear.
Segundo ele, quando chegávamos a um hotel e perguntávamos se havia quartos, lia nos olhos do estalajadeiro – estes gajos são “maricas”, e o “paneleiro” é o velho. Eu era o “maricas” novo, ele, o “paneleiro” velho.
Arranjado, finalmente o quarto, num hotel rasca, mais velho que Job, entrámos nele como se estivéssemos em lua-de-mel.
Para desanuviar este tormento do meu amigo Amaro, assim que entrámos no quarto dum hotel rasca, imediatamente me estiracei em cima da cama, esgotado de cansaço.
Ele que sonhara um futuro melhor, pensando nos motivos, que o ali levaram, fumava cigarro atrás de cigarro, dando voltas ao redor da cama, para trás e para a frente, olhando o inerte miúdo que dormia o sono dos justos.
Ele assim pensava.
Com os olhos semicerrados ia observando os seus movimentos.
Apesar de ser ainda dia, era preciso ter a luz acesa para iluminar a mente.
Quando achei oportuno, a luz, apagou-se. Amaro parou, olhando para a lâmpada. Quando fez menção de se aproximar do interruptor, esta acendeu-se. Recuando no gesto, voltou a apagar-se.
Assim continuou durante algum tempo, tentando perceber como o seu gesto fazia acender e apagar a lâmpada. É que Amaro tinha no ilusionismo um dos hobbys da sua vida e pensava estar a inventar um novo truque.
Querendo impressionar-me, acorda-me e diz:
- Quim, sou um grande mágico! Vê bem isto! - Estica o braço com o punho fechado e abrindo-o na direcção da lâmpada, profere a seguinte ordem:
- Acende-te lâmpada! A lâmpada acendia-se. Repetindo o gesto insistia:
- Apaga-te lâmpada! A lâmpada, apagava-se.
Eu incrédulo e aterrado, implorei-lhe:
- Amaro, não faças isso que me estás a meter medo! Por favor!
Ele, apesar de ainda não saber como aquilo acontecia, vangloriava-se e insistia:
- Abre-te Sésamo! Fecha-te Sésamo! A luz acendia e apagava.
Não conseguindo controlar o poder que estava a exercer sobre mim, insistia em tão maquiavélica manobra.
Fartei-me. Desatei a rir, rir, rir. Rebolei no leito. Caí no chão.
Amaro, tentou ajudar-me a levantar. Não o fez, porque abri a mão e dentro dela estava a “pêra” da mesinha de cabeceira, que eu clicando, ia acendendo e apagando a lâmpada.
A montanha parira um rato. O grande mágico fora derrotado.
Ouvi das boas, mas perdoámo-nos mutuamente.

Meu querido amigo. Onde quer que estejas, estala os dedos e faz a magia de voltar para nós.

5 comentários:

Anónimo disse...

KIM!
Estas coisas só acontecem contigo!
Fantastico!
Inusitado!

Por que não escreves um livro contando todos essas estorias?

Tens belas estorias e bem sabes conta-las.

SPUK

carla mar disse...

a magia é estar não estando.
o teu JÚLIO AMARO, não está cá... mas, continua SEMPRE, entre os AMIGOS.
é uma forma linda de relembra-lo...
obrgd por partilhares este AMIGO :)

O Bicho disse...

É "com um brilhozinho nos olhos" que vejo esta fotografia.
Como diz o Sérgio Godinho.

..quem queríamos ser
e quais as esperanças
que a vida roubou
e olhei-o de longe
e mirei-o de perto
que quem não vê caras
não vê corações
com um brilhozinho nos olhos
olhei um amigo
que é coisa que vale milhões.

Anónimo disse...

Pelo que leio e sinto, a magia está feita...
Instalou-se dentro de cada um dos amigos.

I.R.

Anónimo disse...

Não tenho vindo cá mas, sempre que venho, leio as "estórias" que sei de cor. São pedaços das nossas conversas, das nossas vivencias, aqui descritas como só tu sabes! Belas narrativas Quim!
Ainda há dias falei deste episódio a um casal amigo. E representei-o, imaginando a cena. Rimos tanto...que o Mestre deve estar a dar pulos num ceu qualquer!
Esta é a magia que une a saudade.