5 de maio de 2007

Crónicas de Paris - Sylvie


Passamos a vida a fazer asneiras, julgando tudo saber e ao chegar aqui, sabemos nada saber.
Pior ainda, é aos 18 anos julgarmos ser donos do mundo.

Não eram ainda decorridos trinta dias, que eu chegara a Paris. O meu saudoso amigo Zeca, (Martin, em francês) andava entusiasmadíssimo em mostrar-me “la nuit parisienne”.
Desejoso de descobrir o que estava para lá da noite, levou-me à discoteca que habitualmente frequentava.
O Touquet, ficava ao fundo dos Campos Elíseos, junto à Concórdia, e viria tornar-se na minha segunda casa.
Entrámos e vi a noite fervilhar de corpos entrelaçados na média luz. O tipo de música, ora mexida ora lenta, mudava de trinta em trinta minutos. Quando alguém dançava com alguém, já sabia que, em princípio seria por meia hora, o equivalente a mais ou menos oito melodias, bastante esticadas.
Fiquei algum tempo a observar e a perceber qual era ali o meu papel.
O Zeca-Martin, que lá vivia desde os treze anos, tinha-me prevenido que quando alguma miúda aceitasse dançar comigo, isso era meio caminho andado para acabar a noite no seu leito. Para isso era fundamental que a beijasse no segundo ou terceiro “slow”. Passada essa fase, sem o fazer, facilmente seria abandonado na pista.
Não conseguindo tirar isso da minha cabeça, já que em Lisboa as coisas não funcionavam bem assim, fui olhando à minha volta e todas as caras me pareciam bonitas.
Meio aflito mas demonstrando estar à vontade na matéria, avancei para uns olhos que me aceitavam. E aceitaram. Um aceno de cabeça resolveu a minha incerteza e caminhámos para a pista. Encostou a cabeça no meu ombro e perdemo-nos no meio da “foule”.
Charles Aznavour, cantava “Que c’est triste Venise”. Eu pensava em "Comment te dire adieu"!
Inebriado por aquele momento, fui-me empurrando para a decisão de a beijar, tal era o ritual do momento.
Tem de ser agora, pensei. Estávamos na terceira música e eu tinha de beijá-la. As minhas mãos que timidamente evitavam as partes proibidas do seu corpo, acariciaram-lhe o rosto e ... os seus lábios não fugiram dos meus.
Dentro de mim ribombava o trovão supremo da glória. O mundo era meu. Pobre jovem que se contentava com pouco.
Num beijo depois de outro e outro ainda, assim continuámos até acabar aquela roda de embalar.
Sentámo-nos, mão na mão, e começámos a descobrir-nos como quem encontrar-se quer. 

As horas foram entrando pela manhã e divagado o que havia para divagar, chegou a hora da despedida.
Não sabendo bem como descalçar aquela bota e precisando de alimentar diálogo, perguntei-lhe em surdina: 

- amanhã podemos voltar a encontrar-nos? 
Olhou para mim e meio atónita, dispara de seguida: 
- mas … não vais dormir comigo esta noite? 
Qual principiante atrapalhado, respondi: 
- claro que sim, mas … sabes, é que … humm!!! Pois claro que vou!!!
Se por ali houvesse um buraco, nele me teria metido. Não fora a média luz do recinto, a minha ruborizada face teria denunciado o quão imberbe me senti.
Tentando demonstrar o à vontade que não tinha, avancei depois para os seus lençóis, qual garanhão que não era.
O dono do mundo que eu pensara ser, não passava afinal dum inocente menino, com tudo para descobrir.
Merci, Sylvie!

6 comentários:

carla mar disse...

é mt bonita a forma como assumes a tua falta de experiência...
ganhamos experiência... c prática!
martim (c m no fim)é o nome do meu filho mais novo :)

Anónimo disse...

Mto Bom !!! Mto Bom mesmo, lêr as tuas estórias de juventude.
Faz-me reviver também o meu passado, noutros cenários, não tão longincuos, onde eu e o teu filho Bruno, estórias e personagens identicas conhecemos e vivemos, com as mesmas emoções sentidas, nessa etapa da vida em que a necessiade de afirmação só é igualada no receio e insegurança próprios da inexperiência.

D o Romano

Anónimo disse...

KIM!

TENS MESMO O DOM DA ESCRITA.
REALMENTE É MUITO BOM LER TEUS RELATOS DE JUVENTUDE, NOS REPORTAM AOS FATOS NARRADOS E ATÉ PARECEMOS TER ESTADO LÁ COM VOCES.

ADORO TE LER, ASIM COMO GOSTAVA DOS ESCRITOS DO JC, INCENTIVA-O, VER SE ELE RETORNA.

PARABÉNS.

SPUK

JOSÉ ROMANO disse...

Quem,ao lêr estas linhas,não recorda,algo semelhante no sítio mais recondito do seu cerebro.A beleza,do tema, que de maneira nenhuma é abstrata,é uma mistura de inocência afugir,para o sério da vida.Enquanto dura, experimenta-se um turbilhão de emoções.Ainda bem que viveste essa experiência,assim evitastes as aulas teóricas e fugistes do psicologo

O Bicho disse...

Oh! Oui, nessa época em que o Kim desvendava os mistérios da noite parisiense, Sylvie era também o nome da minha "vedette" preferida.
A emigrante Búlgara - Sylvie Vartan.

Anónimo disse...

Os momentos guardados na casinha das arrumações.
Memórias que sendo suas, parecem nossas.(Bela forma de escrever)
Escreva sempre..
I.R.