11 de maio de 2007

Saiu-me o totoloto



Há vinte anos atrás eu tinha trinta e cinco.
O Fernando, cinquenta. O Artur, quarenta e dois e o António trinta e sete.
Era o mês de Maio.

Para não destoar - tem de haver sempre um motivo - desafiei estes amigos a conhecerem, à minha maneira, outras terras, outras gentes.
O novo Mercedes do Fernando, dava-nos a certeza que poderíamos ir longe e sem percalços.
Os quatro, tínhamos comuns interesses comerciais, sem no entanto, haver grandes laços de amizade.
Vai daí, ei-los que partem, com a certeza de que parariam onde calhasse, dormiriam onde Deus quisesse e comeriam o que o diabo se lembrasse, ou a bolsa pudesse pagar.
Destino – algo incerto na Europa.
Passei toda viagem a contorcer-me de riso, pelas caricatas situações que os meus comparsas, me iam proporcionando, umas vezes, pelo ridículo, outras pela ignorância das coisas e outras ainda, pela perfídia que o meu maquiavélico cérebro congeminava.
É que, há coisa que só acontecem aos outros, mas, nem sempre é assim.

Tínhamos saído de St Tropez e seguíamos para Cannes.
Eu seguia no lugar do pendura. Guiava o Fernando. Mexia e remexia no auto-rádio. Começava a ficar impaciente de tanto nele mexericar, na esperança de encontrar uma estação de rádio portuguesa, quando eu lhe disse:
-Deixe estar, que eu procuro.
- Anuiu e cedeu-me a sua impaciência.

Fui rodando o botão, à esquerda e à direita. Após alguns minutos de fingidas tentativas e sem que ninguém percebesse, introduzi uma cassete no leitor.
Finalmente tínhamos notícias de Portugal. Acertámos em cheio, estava a dar o noticiário.
Este ano foi batido o recorde de visitantes no Feira de Santarém… blá, blá blá
Também o festival do marisco em Loulé, excedeu as expectativas, blá, blá, blá.
Por último - Totoloto – apenas um apostador acertou nos seis números mágicos. 132.000 contos, é quanto vai receber o felizardo do jackpot desta semana. O sortudo de seu nome Fernando A… G...
Com os olhos esbugalhados e meio incrédulo, tira uma mão do volante e dá-me uma palmada surda no ombro, fazendo a viatura ziguezaguear, felizmente sem consequências e grita: - deixem ouvir, deixem ouvir!
- A Antena Um, está a tentar contactar o feliz contemplado, não tendo até ao momento sido possível fazê-lo, em virtude do mesmo se encontrar ausente no estrangeiro, acompanhado por uns amigos.
- Sou eu, sou eu!!! C’um caraças, eu já estava remediado, mas agora fico bem! Logo à noite, vou telefonar à família
- disse o Fernando, completamente eufórico.
É sensacional, aqui em França, ouvir o meu nome na rádio
- murmurava para ninguém. - nem quero acreditar!
Para comemorar, vamos jantar uma mariscada regada com champagne.
Nós, os outros três, já estávamos a ganhar alguma coisa com a sorte do Fernando.
Os rostos do Artur e do António, adivinhavam-se incrédulos e circunspectos.
Fernando, estava recheado de dólares arrancados ao saco plástico da terra arenosa do seu quintal. Emprestou uma quantidade razoável a cada um de nós e nessa noite fomos obrigados a jogar uma “lerpada” com notas a cheirar a húmus.
Escudos, era coisa de pobres.
Difícil, foi chegar a madrugada.

Na manhã seguinte

- Tá lá? Tina? Sou eu, o Fernando. Então há novidades?
- Hã??? Novidades??? Tu é que deves ter novidades
- respondeu a mulher.
- Então o jackpot desta semana, saiu a alguém?
- Sei lá, parece que saiu a um gajo qualquer, porquê?

Fernando cofia o cabelo, faz um esgar de dúvida tapando o bocal do telefone e segreda-nos: - ela não me quer dizer, para eu não começar já a gastar a “massa”!
- Tá bem pronto. Olha, agora vou telefonar ao nosso filho, Um beijinho, adeus.

- Tá, filho? Olá, é o pai! Sim, por aqui está tudo a correr bem! Não, não há problema nenhum, mas estávamos aqui a pensar a quem teria saído o totoloto, esta semana.
- Olha pai, saiu a dois gajos. Tiveram uma “vaca” do caraças. Tanta bagalhoça só pra dois!
- Vá lá filho, diz a verdade. Saiu-me a mim, não foi?
O filho começou a rir e sempre foi dizendo: - não foi nada a si que saiu, pai! Quando cá chegar, vai ver!
Fernando era um poço de nervos. As dúvidas eram muitas, as certezas, apenas as ouvidas no noticiário.
Deixou ainda escapar: - Está tudo mal combinado. A minha mulher diz que o totoloto, saiu a um; o meu filho, diz que saiu a dois. Eles não me querem dizer.
- Calma aí -
diz o Artur. - Nós os quatro jogamos todas as semanas um totoloto à sociedade, por acaso em nome do Fernando e nada me diz que o prémio não seja nosso. Se a sua família diz, que não lhe saiu nada, é porque foi então a nós que saiu.
Estava instalada a confusão.
É meu, é teu, é nosso. Grande pandemónio!
Eu ria, ria, ria. - De que ri você? - Pergunta o António. – É dos nervos! É que eu também acho que o prémio é nosso e não consigo controlar-me - respondi.
Eu, continuava a comportar-me como se os milhões fossem nossos e alvitrei.
- Vamos, mas é telefonar pró meu escritório e perguntar à Madalena, pois é ela que preenche o nosso totoloto!
Comecei a ficar apreensivo e fui atirando achas para a fogueira. – É pá, eu acho que devíamos, cada um, dar 1.000 contos às miúdas lá do escritório!
Fernando deixou logo ali cair em saco roto, a minha estapafúrdia ideia. – Olha este! Você faça contas com o seu dinheiro e deixe lá o dos outros!
Fernando, já começara a acreditar que o dinheiro era nosso, não dele.
Eu, já não tinha mais lágrimas. O riso exagerado, havia-as todas consumido.
Do escritório, informaram não termos sido nós os contemplados.
Ninguém entendia como fora possível ter ouvido aquela notícia na rádio.
E assim foi sendo, durante mais cinco dias, de incertezas mais que muitas. O que se passou nesses dias, só por si, daria para escrever um best-seller.
Deitavam-se, sonhavam e acordavam a falar do totoloto.
Comecei a ter pena de mim. Um rico, pobre homem.

Ao regressarmos a Portugal, parámos na Guarda para jantar. A medo - Fernando ainda acreditava - perguntou ao estalajadeiro: - Amigo, o jackpot do totoloto, saiu a quantos? – A um! - Respondeu o homem.
– A esperança, reacendeu-se, teria pensado ele.
Alguma horas depois, já em Lisboa, cada um tomou seu rumo, cogitando, nas voltas que a vida dá.
Uns meses mais tarde - não perceberam como - mas souberam ter sido uma brincadeira minha.
Ter-me-ão perdoado?
Uma cassete, previamente gravada, tinha conseguido fazer com que aqueles homens não acreditassem em bruxas, mas … pero que las hay, hay.

9 comentários:

carla mar disse...

LOOOOOOOOOOOOOOOL...
hilariante. adorei.
estas partidinhas dão cor á vida!
;)

Anónimo disse...

KKKKKKKKKKKKKKK !
kim!

Será que com esta revelação os companheiros de viagem, vão te procurar???

Adorei!


Spuk

o.r. disse...

Tu arranjas cada imbróquio,
tens várias,
é parecida com a do Zé da Viola.
abraço e boas histórias

JOSÉ ROMANO disse...

Eu sou uma das vítimas das tiranias do JR.Fizemos umas férias nos Alpes e no regresso foi-me prometido, parar-mos em Bragança para com saudade, comer-mos a célebre, (posta mirandesa).Pois é!Se não tivesse tomado a iniciativa,por certo tinha comido tão dilicioso prato, provavelmente em Faro.Apesar destas «maldades»é muito saudável tê-lo com amigo

Anónimo disse...

É preciso uma grande dose de coragem para uma partida destas..

Talvez se tivessem apercebido que era uma graçola e optassem por manter o seu gozo maroto.

Há amigos assim...

I.R.

M C disse...

É preciso existir Saber.Grande dose de coragem gostar de brincar e proporcionar aos amigos emoções fortes e diferentes.Desejo que estas historias interessantes continuem.Bem hája kim.
QUE BOM QUE É SABER BRINCAR UM POUCO NA VIDA .

Rui Salvador disse...

Brincadeira muito arriscada, Mestre Quim. Vá lá que o Fernando parece ter tido "estofo" para encaixar a situação.
Porque é que as notas tinham estado enterradas na terra arenosa?

Kim disse...

Bem, o Fernando é uma pessoa com bastante dinheiro e tinha economias por todo o lado. Temendo haver qualquer congelamento de contas bancárias como já tinha acontecido alguns anos antes, no 25 de Abril. Tinha sempre uma quantia, razoável enterrada no quintal, dentro dum saco de plástico. Normalmente era moeda estrangeira.
Daquele grupo é o único com quem ainda tenho laços de amizade e comrciais.
Claro que perdoaram. Não há nada que pague, ser milionário por oito dias

O Bicho disse...

A "voltinha" pelo Sul de França, desse ano, foi o treino para aquela grande "volta" de 1988.