5 de junho de 2007

O SALTO - parte 5


O ar cheirava a raiva, desespero, revolta, angústia.
O espaço que nos albergava, não tinha porta. Era uma antecâmara de circunstância, meio termo, entre sala de interrogatório e cácere de monge budista.
Dois gendarmes guardavam a entrada desta reclusão forçada. Invariavelmente se desviavam para deixar entrar mais condenados. Eram aos magotes.
A pequena estatura da maioria daqueles portugueses e espanhóis, ali cerceados pelas fronteiras que o homem delimitou, fazia parecer que não éramos daquele grupo.
Regressar de mãos ainda mais vazias, era o destino de todos nós.
Parecia impossível isto acontecer logo ali, às portas do paraíso, com centenas de cidadãos de primeira passando a nosso lado, dirigindo-se para o comboio que se via do nosso espaço. Era como se esticasse a mão e lá não chegasse.
Zuca, ia desabafando:– e agora?
Nós estávamos mesmo à entrada, parecendo não fazer parte da “foule”. O gendarme que guardava o lado mais próximo do comboio andava para trás e para a frente com a impaciência de quem espera ser pai.
Empurrado por uma vontade indómita de levar o meu barco a bom porto e iluminado pelo Espírito Santo que alguns anos antes abandonara, toco ao de leve nas costas do algoz e pergunto-lhe em francês: - O senhor, por acaso não sabe a que horas sai o próximo comboio para Paris? – tentava assim iniciar uma conversa que o levasse a condoer-se de nós e a nos deixar seguir. Coisas de ingénuos, que às vezes resultam.
- Tem um comboio dentro de aproximadamente 10 minutos - diz o gendarme.
Ficámos a olhar um para o outro. Naquele momento passaram-me pela cabeça infindáveis hipóteses do que poderia estar a acontecer.
Zuca, a meu lado, não arredava pé.
- Está à espera de quê? Aqui não tem saída. É para aquele lado! Corra, doutro modo vai perder o comboio – insiste o meu salvador.
Percebi finalmente que o gendarme terá pensado que estes putos, altos, bem vestidos, sem bagagem e a falar francês, não eram certamente filhos dum Deus menor. Tinham-se apenas enganado e entrado na porta errada.
Como se fosse o mais natural do mundo, alongámos o passo, deixando para trás o trem dos condenados.
Hendaye era agora o Pireu da nossa nau. Bastava aproveitar a bonança e zarpar.
Trocámos escudos por francos. Cumprimos as formalidades de embarque e desta vez comprámos o bilhete até Paris.
Não era agora que íamos deitar tudo a perder. A sorte levara-nos até ali. Não iríamos agora abusar dela.
A cabeça estava cheia. Os bolsos quase vazios.

8 comentários:

Anónimo disse...

Ficar apenas a pensar e a lamentar é muito pouco.
Reflexos rápidos, atitudes certas por vezes dão resultado.
Sortudos...

I.R.

Anónimo disse...

KIM!
Estou a tentar advinhar o final desta proeza... imagino que tenha sido tudo bem, pois hoje estais ai a contar o que te aconteceu.

Vocês foram realmente afoitos.

SPUK

Kim disse...

A minha vida foi muito mais aventura, depois disto, mas acabou bem.
Estou a escerver estas memórias ao dia. Por vezes há pormenores que escapam e só lembro mais tarde. Um dia faço os ajustes.
Os meus reflexos rápidos, têm sempre dado resultado. Até um dia!
Não me posso queixar.
Deus foi muito generoso comigo, até nos castigos que me aplicou.

carla mar disse...

tens um anjo da guarda do tamanho de ontem, de hoje e de amanhã :)

Pantas disse...

Amigo Kim, Gosto é daquela parte em que lhe arranjaram um emprego ( Holanda )numa Gráfica de Revistas de "Cowboys" e só tinha trocos para o Peixe Frito e Café.. Acho que era assim não era ?? Ora conte lá aqui aos amigos.. :)

Kim disse...

Vou contá-la brevemente.
Não era peixe frito, mas sim crú. E também não era café, que eu não gosto. Era chá.
Só agora estou a chegar a Paris.
A Holanda fica um pouco mais acima.

Rui Salvador disse...

Nós (eu, Pantas e restante malta da nossa geração), pensávamos que éramos a geração atrevida de Porcalhotenses, que na infância e juventude fazíamos coisas arriscadas, como por ex: ir a Lisboa e vir, de comboio, sem pagar bilhete.
Que grandes aventureiros que nós éramos.

Pantas disse...

Hi,hi,hi.. Mas ó Rui, convem esclarecer que a maior parte das vezes o fazia-mos da parte de fora do Comboio.. :) Podia não ser uma grande Aventura mas era concerteza uma Enorme Estupidez.. :) :) :)