14 de junho de 2007

O SALTO- parte 11

A pequena Lili, era mesmo pequena. Foi a primeira a descobrir o caminho secreto para a minha nau. Era a mais novinha daquele bando engaiolado de “pássaras”, tentando por vários meios meter-se no redil do cordeiro. Eu, apesar de parecer vestir pele de lobo, não passava dum mero recruta na batalha do desejo.
Costumava cantarolar-lhe “C’est la vie Lili” quand tu passes dans les rues de la vie - evocando Joe Dassin. E ela adorava! Tive pena dela! O meu egoísmo absorvia melhor a sabedoria das trintonas, em detrimento dos seus vinte anos. Queria ser conquistada, mas não saía da torre de menagem e eu nada fazia por isso.
Este tipo de atitude, nem parecia meu. Adoro a conquista e gosto da luta. Ali, não o podia fazer. As piranhas comiam-me todo.
“La Petite Lili”! Passava os dias a visitar-me no meu canto e via o seu terreno ser invadido por gralhas sequiosas. O seu aspecto, provinciano e ingénuo, deixava antever que também ela estaria por desbravar, como eu assim estive até ali chegar. Apesar de tudo eu estava um pouco mais adiantado. Tinha-me licenciado em preliminares. Uma boa parte das outras madames, dobrava-me em idade e ganhava-me em jogos libidinosos. Perdia-me então, de temps en temps.
A vida tem destas coisas. Foi a única, das que se aproximaram de mim, que não chegou a experimentar o incómodo dos lençóis, escorregadios como visco. Evitei-o e hoje não tenho remorsos de o ter feito. Iria sofrer. E de todas, era a única que eu gostava.
Claudette, chefiava a rebelião e não deixava os seus dotes por mãos alheias, sim nas minhas Fazia-me lembrar a Bonnie Parker, (Bonnie and Clyde) de boina ao lado e esguia que nem lampreia minhota.
E a vietnamita, a quem eu chamava Lucy? E a Lucy-Lucy, sua filha? Meu Deus, como foste cruel comigo!
Misturei paixão com labor e reuni condições para o principio do fim.
Aguentaste! Esquece, Alain! Já passou!
Monsieur Girardot, homem franzino e rouco, à beira da reforma, a quem os campos de concentração siberianos entorpeceram a voz, apaziguava-me os ânimos e olhando-me nos olhos, percebia tudo. Não precisava falar. Ele era o elo de ligação entre o meu mundo e o resto da fábrica.
A sua silhueta, meio curvada, baixa estatura, vislumbrava-se à distância. Sentia nele o pai que não tinha presente. Falava-me sempre do seu aprisionamento nas estepes russas. Deus esquecera-se dele, mas deixara-o sobreviver. A sua imagem vem-me ainda hoje à memória, quando vejo toucinho. Dizia-me ele, que um naco do dito, era a ração que lhe era distribuída semanalmente. Com ele besuntava todo o corpo, ajudando assim a superar os trinta e cinco graus negativos médios, que lhe enregelavam a alma, Depois, com as sobras alimentava o corpo.
Nos seus olhos, todos os dias era Inverno. Aqueci-lhos tantas vezes, quantas as que abriu os meus.
Continuarei as conversas com ele, nos campos de Odin, lá onde a primavera nunca acaba.
Malgré tout, fui sempre um sortudo. Tinha tratamento VIP de quase toda a gente. Uns, porque me julgavam estudante universitário, de passagem por uma fase diferente na vida. Outros, porque pensavam ser inferiores, culturalmente. Outros ainda, porque seguiam o lema – todos diferentes, todos iguais.
Tinha acabado de chegar à fábrica e fora-me distribuído o trabalho menos pesado, que todos desejavam. Por algum motivo seria - pensavam eles. Sentia, no olhar de alguns, resquícios de invejas infundadas.
Em boa hora caí também nas graças do Director-Geral da empresa. Era inglês e eu era uma das poucas pessoas com quem ele falava. Trocávamos impressões sobre temas vários e interessava-se muito pelo meu passado eclesiástico, que lhe vim a confidenciar.
As quatro mil peças que deveria marcar diariamente, ficavam muitas vezes bem distantes das seiscentas que marcava. Com tantas confidências e desabafos, outra coisa não seria de esperar.
Nos dias em que marcava lençóis, tinha autorização para fazer horas extraordinárias. Era uma benesse que o director Mr Danny me concedia. Ganhava a triplicar e adormecia, envolto em lençóis de linho, sonhando com os Estúdios Cinematográficos de Boulogne-Billancourt, ali ao lado, iluminando-me na ribalta do estrelato.
Santo Deus, como podia eu queixar-me da vida?
… e assim fui vivendo, salpicando juventude com loucura, tanto quanto a inocência permitia.
Na fábrica, Alain, tornara-se o menino mais querido e invejado.
Herói de madrugada, com muitos braços à sua espera, vagabundo à noite, sem ninguém a deitar-lhe a mão.
Ironia! Paris pisava-me e eu tinha Paris a meus pés!

6 comentários:

Anónimo disse...

KIM!
Acredito que continuas com o mesmo caroisma ou ate mais de quando jóvem e apreciado por todos e todas que te conheciam.

Mas como não te conheço, fica uma pergunta, o que fazes? trabalhas na área de artes?

Beijos

SPUK

carla mar disse...

completamente rendida ás estórias de monsieur alain :)
fica 1 beijoka!

Anónimo disse...

Esta espera das incriveis histórias veridicas sobre a tua pessoa deixam-me pasmada e cheia de vontade de ler o que se segue,perante tudo isto eu não vivi completamente nada estou preplexa,nunca fui aventureira,pena.Beijos da Maria

Pantas disse...

Allez, allez !!! ... :)

Anónimo disse...

Um tempo para tudo...
Um tempo de ser e estar.
Um tempo para recordar e compartir com os amigos.
Momentos que me sabem bem..

I.R.

cristina disse...

Olà Quim,
Je serai à Paris cette fin de semaine et penserai fort à toi!!
Bisous.