6 de julho de 2007

As aventuras de Kim Kim


Vinte de Maio de mil novecentos e setenta! Dia do meu décimo nono aniversário!

Marie Claire era uma loira lindíssima. Vivia do que o desenrasca dava. Seu marido Bérnard, bandido, de profissão, estava enclausurado havia algum tempo.
Gyslaine, não menos linda, morena, suiça de Genéve a estudar em Paris, era a sua companhia preferida.

Alain e Martin eram os amigos a quem não era possível dar o golpe, já que nada tinham para ser gamado. Loiro (eu) com loira, moreno (Martin) com morena, ditou o desejo. A espaços alteravam-se os pares, porque a ocasião faz o ladrão e porque era preciso demarcar a emancipação adquirida.
O encontro era habitualmente no Chez Jean Bart.
Naquela noite, Marie Claire, confidenciou-me:
Alain, esta noite, para comemorar os teus 19 anos, vou levar-te ao local mais “in” de Paris. Fica em St Germain, um sítio com ambiente diferente daquele que estás habituado. E vou levar-te no meu novo carro.
- Por mim está tudo bem, leva-me onde quiseres - disse eu.
A “minha” (?) miúda dava muita nas vistas. O seu longo casaco de pele branca
de arminho, cobria-lhe as botas, não menos alvas, rendilhadas de cordões entrelaçados.
Às vezes até tinha medo de sair com ela. Afinal, era a mulher dum diabo e andava com um anjo(inho), salvas as devidas proporções.
O medo duma navalha encostada ao pescoço assaltava-me regularmente.
Estacionada num obscuro canto duma rua cinzenta, a sua viatura era afinal uma velha carrinha Citröen, igual às utilizadas pela Gendarmerie. A dita, estava despida de tudo. Apenas tinha o banco do condutor, o volante e a “manete” das mudanças.
Entrámos os quatro naquele maravilhoso meio de transporte,
talvez furtado, talvez não, e partimos à descoberta duma noite mais.
No espólio de
Marie Claire não havia melhor. Era aquela Citröen, ou nada.
Marie Claire confidencia-me que ir
íamos a um bar regularmente frequentado por artistas do cinema e da canção. Moustaki, Léo Ferré, Serge Lama Johny Halliday, Sylvie Varten, Alain Delon, etc. eram visitantes assíduos. Quis o destino que mais tarde me viesse a tornar amigo dum outro cantor de sucesso, Gerard Lenorman.
Imbuídos de espírito vadio, ei-los que aí vão cheirar o mundo do sucesso.
Dentro da viatura, era hercúleo o esforço para nos segurarmos. Viajávamos em pé e sem nada onde nos pudéssemos agarrar.
Martin e Gyslaine lá iam barafustando com as condições de transporte e a certeza da ilegalidade ambulante, anuindo, no entanto, às refutações que Claire ia vociferando.

Ou querem assim, ou vão a pé! - insistia.
Trinta minutos bastaram para chegarmos ao local.
Nos nossos bolsos o dinheiro não abundava, como de costume. Lá dentro, a média luz não ajudava na descoberta das espécies raras. “Cuba libre” para os quatro, era a bebida alcoólica mais barata que o nosso bolso suportava.
Assim fomos bebericando, fazendo render aquela bebida que teria de dar para toda a noite. De vez em quando o empregado vinha junto de nós perguntar se queríamos algo mais. Olhando para o copo, com se ainda estivesse meio, lá íamos dizendo - por enquanto não é preciso mais nada.
Dançámos que nem possuídos. Expirámos fumo que nem cacilheiros. Bebemos que nem forretas.
Da gente muito famosa, nem cheiro. Apenas a equipa B.
Ou a neblina das luzes opacas nos turvava a visão, ou os artistas haviam rumado a outras paragens.
Era já tarde para nós, cedo para outros, quando nos foi apresentada a conta.
Duzentos e trinta e dois francos, fizeram-nos pestanejar. Esvaziadas as carteiras, juntámos noventa e cinco francos, mais do que suficiente para passar uma belíssima noite noutro qualquer bar. Questionado o empregado sobre o montante exigido, este informou-nos que ali, cobrava-se à hora. Quer bebesse, quer não bebesse.

Martin e Claire, mais batidos na noite, bem tentaram fazer valer a nossa ignorância. De nada valeu.
Claire olhou em redor, fitou uma presa, aconselhou calma e partiu em busca de alimento para os filhotes.
Voltámos a sentar-nos e de longe apenas tentávamos perceber qual o jogo de palavras que esta estaria a utilizar junto dum desconhecido, ainda com idade de ser nosso pai e já com idade de poder ser nosso avô.
Dez minutos depois, chega junto de nós, pega na mala, embrulha-se no falso arminho e desabafa:

pronto malta, podemos ir embora!
Assim fizemos. Olhar para trás, é coisa que não se faz quando o coração não pede.
Os noventa e cinco francos continuaram nos nossos bolsos. Em qualquer outra discoteca, chegariam de sobra para sorver várias bebidas.
Não soube qual a conversa havida. Penso hoje que terá sido um estratagema da Claire para sairmos, com calma e sem pagar.
Disse-nos que aquele desconhecido era seu amigo e que pagaria as nossas bebidas.
Fraca desculpa para quem não queria dar explicações a quem também as não queria receber.
Talvez ela lhe tenha pago no dia seguinte, nua e crua, e despida de arminho.
Nada mais interessava.
Regressámos à casa de Gyslaine, onde esvaziámos os corpos, embriagados de vigor e sequiosos de desejo.

2 comentários:

carla mar disse...

sou o produto dos teus anos quentes :)

michel polnareff, fazia parte deste grupo de artistas...
naquela, bela noite, não os encontraste em st germain, porque........................ nenhum de voçês estava em condições de ver, o que quer que fosse!!!
;)

Anónimo disse...

Este Kim era uma bela peça.