17 de outubro de 2008

Pedintes


Não sei exactamente o que leva alguém a mendigar!
É que, o acto em si, pressupõe pobreza, mas também, hábito, vício, modo de vida.
Antigamente dava sempre o benefício da dúvida, a qualquer pedinte. Podia estar a ser enganado por um falso cego, um cabisbaixo aleijão ou um lacrimejante estropiado, mas nem pensava duas vezes para desembolsar os parcos níqueis possíveis. Entretanto a vida encarregou-se de misturar os necessitados com os Iscariotes e quase me empederniu o coração.
Enquanto criança, bastas vezes deixei de comer o bolo de arroz que mitigava a ânsia duma bem devorada marmita, para depositar um escudo numa qualquer mão estendida. Hoje, passadas que foram duas gerações, apenas retiro dos bolsos, o impulso do momento.
E depois, tenho vergonha de mim!

10 comentários:

carla mar disse...

A esmola não cura a chaga;
mas quem a dá não percebe
que ela avilta, que ela esmaga
o infeliz que a recebe.

António Aleixo


... porque quem pede esmola, seja porque motivo for, está sempre de mãos estendidas... á espera. tantas vezes... de um sorriso, de uma palavra... de tudo.

@braço-te ;)

Osvaldo disse...

Olá Kim;
Tema interessante e foto bem expressiva...
Como "putos" da mesma época, lembro que lá em casa a "romaria" dos pedintes era ao sábado de manhã e minha mãe tinha sempre um "pote de caldo" para os pobres que apareciam. Dinheiro não dava-mos mas com fome ninguém partia.
Li com atenção o texto do Kim e no final do mesmo senti a bondade nas palavras do amigo quando termina dizendo; "E depois, tenho vergonha de mim!"...
Caro amigo, a nobreza dos homens vêm-se nos seus actos e esta sua frase só o enobrece.
Um grande abraço amigo Kim.

jrom disse...

O pescador deve dar um peixe a quem tem fome ,mas mais importante é ensiná-lo a pescar.

Anónimo disse...

Kim:
Mais uma vez, contando a tua estória, contaste a minha. Também eu, em tempos, tinha sempre as mãos abertas para dar. Depois de vários barretes, fui mudando e, hoje pr sistema, não dou esmolas. Comida, sim. Esmolas, não.
Mas, a verdade, é que depois, sinto um frio, um mal estar, pensando se não terei sido injusta.
Infelizmente, a vida endurece-nos, torna-nos desconfiados.
Maria

Anónimo disse...

A NÃO PERDER

Doclisboa 2008

www.doclisboa.org

xl

Anónimo disse...

Ola,tambem eu sinto remorços depois de dizer nao a uma esmola.
muitas vezes ouvi minha avó dizer:«...nao te arrependas de fazer bem...teras de retorno a dobrar... e quem dá a um pobre dá a mim mesmo...»dizia Jesus.Raremente dou dinheiro e sobre tudo a crianças á saída dos supermercados...sempre algo de comer e até hove vez que recusaram a minha esmola.«...nao só quero dinheiro...» isto representa uma face da falça pobreza que se dá ao luxo de exegir!!!!

Anónimo disse...

Girassol

Anónimo disse...

.....«Por vezes sentimos que aquilo que fazemos não é senão uma gota de agua no mar.Maso mar seria menor se lhe faltasse uma gota»...


Madre Teresa de Calcuta


girassol

Vasco disse...

Passo todos os dias na Rua Garrett, Rua Nova da Trindade, Largo do Camões,Rua do Alecrim e toda essa zona, onde se encontram os dois extremos. A riqueza, dos condomínios fechados, dos carros de luxo, das lojas de artigos de marcas e ourivesarias fartas de clientela; por outro lado, a miséria - a quantidade assustadora de pessoas sem-abrigo, que se escondem do frio e da chuva à entrada de prédios, dentro de caixotes de papelão, por baixo de varandas, etc.. Depois temos os pedintes. Conheço muitas destas pessoas de vista. Curiosamente, ainda não reconheci nenhum dos pedintes como sem-abrigo. A pobreza envergonhada é a que mais me custa ver. Os que pedem, mesmo que necessitem, ainda vão sobrevivendo. Já aos outros, dá-me mais vontade de os ajudar.
Aqui há tempos, vi um homem magríssimo e com ar de doente entrar tímidamente num café, no Campo Grande. Mal o senhor tinha entrado, quando veio o dono do café e o expulsou desumanamente do estabelecimento. Eu era para lá ir com um grupo de mais seis pessoas, mas mesmo à entrada disse em voz alta: "é melhor irmos a outro café, onde tratem melhor as pessoas!" De seguida, fui ter com o pobre senhor, dando-lhe umas escassas moedas para ir comer alguma coisa. Ele não queria aceitar, mas acabou por ceder. Mesmo tê-lo feito sem ser para dar nas vistas, duas amigas que vinham comigo, correram logo a dar também a sua contribuição.

Continuação das suas melhoras, Kim!

Anónimo disse...

Vasco, a pobreza envergonhada é a mais triste de todas. Alguém, que infelizmente já partiu, dizia muito isso.
Calculo o que verás no sítio onde trabalhas. Por isso, sei que o que dizes é sentido.
Beijo
Maria2