2 de outubro de 2007

Au revoir Paris


Naquela noite, a movimentação de gente na Gare du Nord, em Paris, era fora do comum.
Cá fora, a neve fazia das suas e empurrava todos para locais quentes e abrigados.
As estações do metro estavam bem recheadas de pedintes, vagabundos e errantes, como eu. Palmilhei a gare, várias vezes, para a frente e para trás, na busca incessante duma cabine telefónica. Não pretendia telefonar, apenas abrigar-me e dormir num pequeno espaço, sem correntes de ar. Todas estavam ocupadas. Outros, pensaram como eu.
Sem nada para fazer e enregelado até ao tutano, continuei a percorrer aquele espaço, despido de tudo.
Apenas os “placards” pendurados em zonas estratégicas, convidavam a ir mais além. Comecei a lê-los e reparei que cada um convidava a um destino diferente.
Visite a Suécia! Visite a Escandinávia! Visite os fiordes da Noruega!
Tantas foram as vezes que li esses cartazes que, imediatamente, os meus olhos se encheram de aventura. Dirigi-me à bilheteira, retirei todo o dinheiro dos bolsos, pu-lo na bandeja circulatória do “guichet”e pedi: - quero um bilhete para Norte, até onde este dinheiro chegar.
O empregado, olhou-me com o desprezo que um qualquer louco merece. Contou o “poignon” e separando umas moedas para a esquerda e outras para a direita, foi-me dizendo:
- Você tem aqui 76 francos. O bilhete mais próximo deste dinheiro, custa 52 francos e dá até à fronteira da Dinamarca. O que quer fazer?
- Ok. Pode ser! Dê-me esse dinheiro, de bilhete!
Sem mais nada dizer, coloca o respectivo bilhete e os 24 francos sobrantes, na bandeja, fazendo-a rodar para o meu lado, como que ignorando o acto dum louco.
O dinheiro servia para o que servia. Não me importava que o não tivesse. A incerteza de imaginar que algo me aconteceria por não ter um cêntimo, era igual à de saber que tinha uns francos e quando acabassem estaria no ponto de partida. Logo, era igual ter ou não ter dinheiro, a menos que fosse muito. Apenas adiava a sobrevivência.
Eram seis horas da manhã quando me despedi de Paris, ao som do siflar daquele paquiderme de ferro.
A saudade já me atormentava.
Não resisti a olhar para trás, metendo a cabeça fora da janela.
Respirei o ar pesado da gare e parti, olhando a urbe a despertar.

5 comentários:

carla mar disse...

é tão bom partir assim!
a liberdade muitas vezes é sobreviver...
ando a fazer coisas parecidas... parto sem destino e n digo nada.
um dia, partilho ctg as minhas LUAS ;)

Rui Salvador disse...

Les aventures de KIM KIM - Mission Dinemarque!

Anónimo disse...

Oba!

Vamos ter mais Sr. KIM e suas aventuras.

SPUK

sendyourlove disse...

Admito muito pessoas assim sem medo da vida...
Beijos gordos

Anónimo disse...

Uma procura constante...

Coragem, vontade, descoberta e encontro.
"encontro com n´"

I.R.