11 de agosto de 2011

Sou uma tragédia!



Do blog do meu filho Bruno, www.b-solonely.blogspot.com não resisti a transcrever o prosaico desarrincanço, que às vezes chega a todos.


O meu filho não é uma tragédia - é um espanto!



Quero morrer aqui. Numa noite de tempestade. De sete-ponto-três na escala de Richter, de preferência. Sem essa coisa dos filhos e dos netos em redor. Que mania vil e sem gosto. Enfiado num pijama de seda (que por enquanto me recuso usar), acabado de chegar da caravana de Veneza. É, os velhos têm mais frio.



Quero morrer aqui. Qual anacoreta dos luxos. Cenobita de fachada. Falso indouto. Vá, apressem-se a cunhar-me a lápide. E já agora que lá vêm tragam-me cartas d’Armenia para eu queimar que me apraz muito o aroma e abafa o cheiro a branco. É, os brancos cheiram a mortos.
….

Quero morrer aqui ao som do cravo razoavelmente temperado (pelo qual ando ultimamente apaixonado). De barba aparada e bigode proeminente, garrafa numa mão e charuto na outra, protegido por Teutates e Taranis de Lucano e a rir-me para Lug:

- Ah, ah, ah… para ti

Sou uma tragédia
...

Quero morrer aqui. Com a voz da diva grega a cantar-me Puccini ao ouvido

(eu para ela em surdina, entre dois goles com a voz arrastada e já sem fôlego a sussurrar-lhe aquilo que sempre lhe quis dizer); isso, aproximem-se:

- O teu namorado…

- Sim

- O Grego…

- Diz

- … era um parvo do caralho


(é. Os brutos não sabem falar)

E ouvir o bater do coração. O correr em direcção à porta, o fechar com estrondo e os soluços:

- Não vás para aí

(Aplausos)

Sim, vá, digam lá:

- És uma tragédia

- Eu sei

….

Quero morrer aqui. Ao som das suites para violoncelo de Bach. À meia-luz. Ao sabor de um vintage Trinidad. De fato e gravata. De sapatos por medida calçados. De echarpe e sobretudo de caxemira, de luvas e chapéu. Pronto para a noite de estreia. Pronto para o primeiro dia:

«O mio bambino caro…»

- Voltaste
….

Quero morrer aqui. Cabeça, tronco e membros. Morte completa. Olhos, ouvidos e boca voltados para o Böcklin aos pés da cama. Aquele da ilha dos mortos. O melhor que já vi. Vá, digam lá:

- És uma tragédia

- Eu sei
….

Quero morrer aqui. Cama de pé alto. Dossel acetinado. Em silêncio. Com o Auto da Barca do inferno à cabeceira. O tolo que me queria tornar, que esse não vai para onde eu vou:

“Welcome to hell, we buy, we sell”

- O senhor, por aqui
….

Quero morrer aqui. Nuzinho, ao léu. Pau-feito de caçador. Em riste. Piamente, de preferência. Sem crucifixo à cabeceira. Sem Santos nem ladainhas de altar. Sem rezas nem promessas. Sem píxide. Sem flores. Vá, digam lá:

- És uma tragédia

- É verdade


….

Quero morrer aqui. De máscara nos genitais. Traços faciais distorcidos. Abstracto. Com Valium e Zoldipem. Qualquer ser pelo qual se tenha uma ideia abstracta só poderá existir de forma abstracta. Ha,ha…, tem graça:

- O quê

- És uma tragédia

- Pois sou

….

Quero morrer aqui, para que fique registado. Sem choro, sem lágrimas. Não é difícil de imaginar. Concentrem-se vós que cá ficais, para que nada passe em vão. E muita atenção à luz, muita atenção à cor, que nada mais vale na orgia dos sentidos que aquele da visão.
E para os outros, para aqueles que me quiserem seguir: evitem abrir a porta à minha direita, pois uma vez aberta:

«Lasciate ogni speranza, voi che entrate» *


- Eu sei. Sim, sou uma tragédia

*Perdei toda a esperança, vós que entrais
do Pórtico do Inferno
in: A Divina Comédia; Dante Alighieri


9 comentários:

Maria disse...

Kim
Já tinha visto o blogue do Bruno. Li-o de um fôlego e, adorei.
O rapaz escreve mesmo bem! Está de tirar a respiração. Gosto de o ler.
Leio-o sempre. Escreve com garra e imaginação, com fantasia e franqueza, num modo muito próprio.
Tem a quem sair.
Parabéns e beijos para os dois.
Adoro a ária a que se refere:"mio bambino caro", sobretudo cantada pela Calas.
Maria

Je Vois la Vie en Vert disse...

Querido Kim,

Seria uma tragédia se ele fosse embora porque seria a partida dum grande artista.
Tem um estilo (de escrita bem como de pintura) bem próprio e original.
Quem sai aos seus...

Beijinhos para ambos

Verdinha

SEVE disse...

Já tinha "listo" e "vi-o" como um filme do Stanley Kubrick, como se revisse o fantástico Barry Lyndon.

Zé do Cão disse...

Depois disto, Confesso

QUERO MORRER AQUI


abraço

Laura disse...

Kim; já tinha passado por lá e admiro por não ter comentários, mas ele quer assim.
É uma escrita que nem tento entender, é algo de maravilhosos, tem pés e cabeça, o rapaz promete, e que bom que a Neide esteve com ele e a Ana e disse que são um casal lindo, lindo, bem dispostos e que a mimaram tanto..Obrigada ao Bruno e a ti que és o pai dele.

laura

Magia da Inês disse...

♪°º✿
˛♫ Olá, amigo!

Aiiii Kim!...
Que lúgubre!!!

Bom fim de semana!
Cheio de alegria e muita paz.
Beijinhos.
Brasil
º°✿
✿♥ ° ·.
˛✿♪

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

É Dante, trágico...cômico...Divino!
Quero viver aqui! Genial!
Abraços

rosa-branca disse...

Olá Kim, tu tens um filho que escreve
assim? Mas que bela, linda adorável tragédia...eu também quero morrer assim, mas no feminino e ao som do Andrea Bocelli o resto pode ser tudo igual...lindo meu amigo tenho que ir ver o blog desse grande homem. Adorei meu amigo e já agora deixo os meus parabéns ao pai e a esse bendito filho. Beijos aos dois com muito carinho

Anónimo disse...

Lindo...

Isabel