21 de abril de 2011

AMOR

Do blogue do meu filho Bruno www.b-solonely.blogspot.com transcrevo o seu último post.


Sem interrogações! Sem rigor! Escrito apenas com o coração! Talvez um Requiem ao seu avô, meu pai, já quase ausente, no resto dos dias da sua vida.



Entrou de mansinho. Alguém perguntou:

- Por onde andaste

Sei lá, por aí, respondeu mudo. Percorreu o corredor escuro até ao fundo arrastando os pés. O cheiro dos Jarros era intenso. Sujo e empoeirado chegou-se à cama e descalçou as botas que foi poisar junto à janela. Abriu uma fresta e abeirou-se para logo sentir o ar encher-lhe os pulmões. Respirou fundo.

- Feche a janela e venha deitar-se

Ouviu e calou. Anuiu, voltou. Os fazedores-de-camas ditavam as ordens por ali. Sentou-se, desta vez na cadeira. Cruzou a perna e descalçou a meia. Descruzou e cruzou a outra para fazer o mesmo. Lembrava-se pouco do último dia. Doíam-lhe os pés mas não se queixou. Doíam-lhe as costas e os braços e as pernas e as mãos e a alma. Doíam-lhe as unhas e os cabelos e as pestanas e o umbigo. Não estava farto mas estava pronto. E depois. Deitou-se vestido.

- Saia daí, não ouviu o que lhe disse





Os fazedores-de-camas vestidos de branco uivavam na noite invernosa. Lembrava-se da terra. Da neve, do frio, do dia em que foi buscar o pai ao quarto da cama morna que ficava por cima da tasca. Melhor, do dia em que o foi buscar ao prostíbulo.

- Vai lá buscar o teu pai, Joaquim

(contou-me ele um dia ao almoço)

Não tinha ainda nove anos, quando a vereda acabou e a tasca dos contrabandistas se assomou à sua frente, o pecado morava ali. Sabia lá ele o que era o pecado.

- Que estás aqui a fazer Joaquim, víspa-te, já cavaste a horta

Abalou a correr. As lágrimas corriam-lhe rosto abaixo, os joelhos tremiam e os pés nem tocavam o chão enquanto adejava carreiro acima perseguido pela imagem do pai e da mulher nua no leito quente. Seria aquilo o pecado.

(também ao almoço, as lágrimas)

- Já chega avô, um dia contas-me o resto

A cama branca voava pelo quarto, o tecto, as paredes, o chão, a luz. Outra vez se levantou. A cabeça zaruca. Quem é isto. Estranha sensação de cá estar sem estar cá.

- Ó homem, onde vai

Quis falar, pareceu-lhe, mas estavam uns gajos de sentinela à porta do cérebro que não o deixavam passar.

- Ficas aí.

Ordenaram-lhe.

Obedeceu. Mudo ficou. A alcateia dos fazedores-de-camas brancas, de branco vestidos e uns tipos esquisitos que gesticulavam à sua frente e faziam barulho davam vontade de rir. Quem é isto. Riu-se e os tipos à sua frente gostaram e riram-se também. Pareciam parvos e queria ir-se a eles com ganas mas os gajos à porta do cérebro eram mais fortes e ele há muito que perdera a verdura. Nada a fazer. Ficou-se. Deixou-se escorregar cadeira abaixo.

(ainda não tinha dito que voltara a sentar-se na cadeira)

Sentiu algo no seu colo. Um par de olhos com um corpo tenro atrás que nele se aninhava e o fitava com curiosidade. – Quem é isto. Sorriu, pois bem lhe pareceu e poisou a mão na perna tenra do corpo estranho. Os outros entretanto – os que pareciam parvos, mexiam as bocas freneticamente e ajeitavam-lhe o cabelo grisalho e os óculos que teimavam em escorregar nariz abaixo. Um deles entretinha-se a atafulhar-lhe a boca com uma vianda esquisita que trazia numa gamela rançosa.

- Coma meu pai, coma

Dava duas voltas àquilo e engolia com rapidez.

- Deixem-me estar

Murmurou, aproveitando o momento do render da guarda das sentinelas à porta do cérebro – “ Santo-e-senha”.
Tentou levantar-se, em vão.

- Esteja quieto que ainda não está na hora

Uivou um lobo fazedor-de-camas do outro lado do quarto. O que é que os lobos sabiam. O mesmo que os outros. Nada. Ganhavam à jorna e saíam cedo. Isto do tempo tem muito que se lhe diga. Esperou pacientemente que a visita acabasse. Que guardassem as marmitas da lavadura nas alcovas. Se ao menos uma sopita de beldroega.
Foram-se. Os que vieram e os que não.
Estava pronto. Ia finalmente sonhar. Arrastou-se até à cama.

- Onde vai homem

A loba ajeitou-lhe os lençóis.
Ele fechou os olhos e sorriu.

- Em que pensas avô

- Ai, no meu amor


(para o meu avô Joaquim)

18 comentários:

Teté disse...

Comovente! Parabéns ao Bruno!

Beijocas a ambos!

SEVE disse...

Fascinante!
Amor!

XL disse...

BRUNO
Um grande grande abraço

XL

Janita disse...

Kim, abençoo o impulso que me fez ligar o computador pela derradeira vez, até daqui a uns dias, ou sabe-se lá até quando...
Quando publicaste aquela tela do Bruno-Retábulo, estive no blog dele e li alguns dos seus belíssimos textos. Creio que não vi espaço para comentários, por isso não disse nada.

Parabéns Bruno!
AMOR...essa palavra mágica que move montanhas!
Sem ela, nada, neste mundo, faria sentido nem teria razão de existir.

Beijinhos a ambos.

Páscoa Feliz.

Janita

Je Vois la Vie en Vert disse...

Já se sabe de quem o Bruno herdou a sua sensibilidade.
Parabéns pelo texto cheio de emoção!
Beijinhos
Verdinha

Maria disse...

Querido Bruno
O teu pai já me fez chorar muitas vezes. Hoje foste tu.
Que linda homenagem ao avô! Que ternura deves sentir por ele!
Dói muito vê-los assim, não é miúdo?
Eu sei que dói. Já passei por isso demasiadas vezes.
Lindo, muito lindo e muito sentido.
Sabes? Quando olhei a foto, pareceu-me que estava a ver o meu pai que partiu há dez anos.
É bom ver que ainda há gente como tu. Só podias ser filho desse homem que admiro e estimo, o meu amigo Kim.
Um beijo para ele, para ti e para o avô.
Maria

Anamaria disse...

muito emocionante!escrito com a alma, a gente sente. Um abraço e Boa Páscoa

Green Knight disse...

Que o calor do meu abraço, envolva as pessoas referidas, neste texto, que também me deixa apreensivo.
jrom

Anónimo disse...

Gostei muito
Gosto das palavras escritas com o coração.

Um beijinho e uma Páscoa feliz

Isabel

Laura disse...

Não sabia que o Bruno tem um blogue e nem imaginava que ele escrevia assim, tão assim com o coração, com a ternura das palavras que o seu amor pelo avô trouxa à luz do sol...

Kim, tens tanto do teu pai querido, tanto.

beijinho para ti e para eles, da Dolce que te ama como o maninho querido que és, sois todos ternura e amor.

Dad disse...

Muito lindo o post. É tão bom ver a ternura...

Querido amigo, venho desejar-te uma Páscoa feliz, apesar do tempo não estar de feição...

Beijinhos grandes,

Magia da Inês disse...

Páscoa,

°•♥♥ °°•✿♫°.•

É ser capaz de mudar,
É partilhar a vida na esperança,
É dizer sim ao amor e à vida,
É ajudar mais gente a ser gente,

Boa Semana Santa!
Feliz Páscoa!!!✿°º
✿♫♫°º

Beijinhos.
Brasil°º
• ♥♥♫° ·.

( ),,( )
(=':'=)
(,,)♥(,,)

O Bicho disse...

Parabens,
Bruno menino, senhor das emoções.

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Kimamigo

Bué da fixe. Boa, Nuno. Sabes escrever, o que é um dom. Muitos parabéns.

Para o papá babadinho da silva e para ti

A melhor Páscoa possível

Abçs

Anónimo disse...

Que belo e que enorme sensibilidade.
Não estamos perdidos... temos jovens muito bons

Patricia Carvalho disse...

Seu blog tem estilo, adorei ler vc...sao coisas que nos esquecemos mas que as vezes é bom lembrar isso nos da munição pra mudanças...

Kim como vc achou meu blog?

adorei tudo por aqui...
voltarei

Anónimo disse...

GRANDE p--- e g---
Abraço
o.r.

kevin disse...

Mata Mblere

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