
O meu mundo gira muito em volta das Portas de Benfica e foi aí que ele me deliciou com esta “estória” que era mais ou menos assim:
Há muitos anos, talvez por volta de 1955, ele tinha um Mini e era um artista ainda muito pouco conhecido, apesar de julgar que toda a gente o conhecia (palavras dele). Então era habitual a malta do teatro, depois de terminado o espectáculo, lá por volta da uma da manhã, ir beber um copo ou petiscar qualquer coisa onde os ventos soprassem de feição.
Ora foi numa dessas noites que o Raul, ao volante do seu Mini foi para uma dessas patuscadas acompanhado pelos seus amigos, Humberto Madeira, José Viana e Amália Rodrigues. No banco de trás seguiam estes dois últimos.
Vindos do Parque Mayer, dirigiam-se para os lados de Belas e ao passar pelas Portas de Benfica, foram mandados parar por uma brigada da Polícia de Viação e Trânsito, que ali tinha um posto permanente.
Naquele tempo os agentes da Brigada de Trânsito eram uns verdadeiros algozes a vomitar prepotências. Multavam quando tinham razão e quando não tinham. Felizmente que hoje melhorou um pouco, mas multam na mesma.
Como não conhecesse bem o local, hesitou entre virar à esquerda, à direita ou ir em frente e isso terá despertado a curiosidade do agente que imediatamente o mandou parar. Do alto da sua cátedra o agente insinuou que o Raul teria feito uma manobra perigosa e como tal tinha de o multar. Como principiante que era, identificou-se tentou explicar ao agente que eram todos artistas e tinham acabado de fazer um espectáculo e iam petiscar a Belas, mas não conheciam muito bem o caminho, daí a hesitação e a possivel brusca mudança de direcção.
- Raul Solnado? Nunca ouvi falar!
O agente, impávido e distante, ignorava qualquer teia que o tentasse enlear.
Raul, quase a medo gaguejou que ele próprio era artista e aquela senhora do banco de trás era já a grande Amália.
O agente nem desviou o olhar. Cada vez mais sisudo e prepotente rabiscava a indesejada coima.
Num só golpe arranca a folha que acabara de escrever, entrega-lha e vira-lhe as costas deixando no entanto escapar um desabafo:
- Amália??? Está-me a dar fado mas já não vou em cantigas!!!
E naquela noite o jantar ficou mais caro!
Desculpa lá Raul, mas esta é daquelas que se podem contar!