
Júlio Amaro era o homem feito. Kim, o homem por fazer.
As multifacetadas virtudes do Amaro permitiam-lhe, à vez, saltar duma pincelada de aguarela para o voo rasante do insólito. Amaro era mestre na arte da pintura, sábio no que reclamava da vida e mago aspirante a Houdini.
Atendendo a estes predicados, aqui vos deixo uma pequena “estória”.
Amaro tinha sido desafiado para trabalhar nas Editions Vaillant, em Paris, para desenhar aquelas “estórias aos quadradinhos” que fazem o deleite da criançada e não só.
Como eu conhecia razoavelmente bem Paris, acompanhei-o nessa aventura, de modo a minimizar os efeitos da língua e costumes, nos seus primeiros tempos na cidade luz.
Assim, um dia chegámos ao hotel algo cansados e enquanto Amaro ficou a esfumaçar no vaivém da largura do quarto, eu espojei-me ao comprido na cama que tinha mais à mão e depressa adormeci.
Amaro ficou a sorver cigarro após cigarro, rodopiando para trás e para a frente mergulhado em pensamentos mil. De repente, a luz do tecto apagou-se. Olhou para cima e cofiando a barba de dias ali fica especado a tentar entender o sucedido. Afasta-se um pouco e a luz acende-se. Estica a mão para o interruptor e a luz apaga-se. Amaro estava atónito. Não entendia. Ali ficou vários minutos gesticulando passes de mágica que ora iluminavam o quarto ora o escureciam.
Querendo partilhar tal bruxaria comigo, acorda-me e diz-me:
- Kim, vê bem este meu número de magia que nunca te fiz!
E esticando o braço para a lâmpada profere a palavra mágica: - Acende-te! E a luz acendeu-se. - Apaga-te! E a luz apagou-se. Repetiu, uma, duas, três, milhentas vezes.
Eu comecei a ficar aterrado com tamanhos truques do Demo e implorei-lhe:
- Amaro, não faças isso! Com essas coisas não se brinca! Estás a meter-me medo!
Ele sorria e continuava na dança do acende e apaga e quanto mais medo eu tinha mais ele se deleitava e vangloriava seus tamanhos poderes.
Assim ficámos algum tempo, até que … eu não podia mais.
Comecei a rir, rir, rir e rebolando na cama caí na carpete. Levantei o braço e mostrei-lhe o interruptor que segurava na mão. Era eu que apagava e acendia a luz, julgando ele que eu estava a dormir.
Meu Deus, acabara de humilhar o grande mágico.
Olhou-me com olhos de quem não existe, acendeu novo cigarro, vestiu o sobretudo coçado, levantou-lhe a gola e saiu murmurando guturais sons inatingíveis.
Lá fora, não chovia, não ventava!
Perdoa-me amigo!