19 de setembro de 2011

Amsterdão - às escuras ninguém vê!

Os meus novos amigos egípcios (muçulmanos) eram uns grandes pândegos! Quando Alá não estava por perto, como é evidente!
Nunca percebi bem as acérrimas devoções. Seja por Alá, por Shiva, por Deus, por Rá, ou por Buda. Respeito todo o tipo de paixões celestiais, (com as terrenas me desaguiso) mas francamente não as entendo, quando à luz desse Deus se é um anjo e na sombra do seu manto, se é um diabo.
Assim era com Ibraim e Hassan, dois jovens universitários egípcios tementes a Alá e que temporariamente desbravavam os Países Baixos.
Durante o dia éramos todos iguais, mas à hora de agradecer-Lhe, viravam-se para Meca e transfiguravam-se no mais devoto seguidor. Depois, continuava o regabofe da asneirada, da descoberta e do credível.
A distante experiência espiritual que eu já vivera, fazia-me pensar em todos os credos do mundo.
O budismo será talvez aquele que mais se assemelha à doutrina que os seus seguidores professam na contemplação do Divino, mas estes dois neo-amigos estavam loucos com a proliferação de mulheres bonitas despidas dos preconceitos, que as Gomorras da velha Europa proporcionavam.
Infelizmente para eles, não tinham grande saída com as ditas, apesar de para todos os sacos haver um baraço. O seu aspecto cigano assustava um pouco.
Uma noite convidaram-me a jantar na pequena divisão onde viviam. Um sortido de folhados de pão com condutos esquisitos e salobros, foi o repasto duma noite egípcia. No final, apagaram a luz, retiraram debaixo da cama uma garrafa de whisky e todos bebemos por ela.
Confundido com aquele ritual e perante o meu espanto, explicaram-me então que Alá não permitia que bebessem álcool. A única hipótese era fazê-lo às escuras, para que Ele não visse.
Em pleno século XX, nunca pensei ouvir tamanha atrocidade, principalmente vinda de gente culta, mas essa não era a ligação que fazia curto-circuito e eu estava preparado para todo o tipo de choques e ... toques.
Naquele tempo era pouco vulgar ter carta de condução aos dezoito anos. Mas isso acontecia comigo.
Sabendo disso, estes faraónicos amigos que não estavam habilitados para conduzir, compraram um velho “Carocha”, a cair aos bocados. As economias conseguidas na fábrica de cacau onde trabalhavam comigo, nos arredores de Amsterdão, já bastavam para adquirir o veículo mascote de Hitler. Eles compraram, eu conduzia. Quando partissem, vendiam o carocha e recuperavam o investimento. Nada mal pensado e nem me lembro se eram estudantes de economia.
Duzentos florins, foi o valor dispendido naquela maravilhosa viatura que estava sempre disposta a trabalhar. Bebia pouco e comia menos ainda.
Depois, era ver dois parvos e um palerma, passeando por tudo quanto era sitio e sem saber qual a direcção a seguir. Apontava a Utrech e acertava em Den Hag e os olhos não chegavam para os diques e as papoilas
Soube mais tarde que não podia conduzir na Holanda, com carta de condução portuguesa.
Como de costume, nos meus errantes caminhos, a sorte protegia os audazes, ou talvez inconscientes.
E eu era um destes! Talvez os dois!
Às vezes – in As aventuras de Kim-Kim

11 comentários:

Anónimo disse...

Mestre KIM....

Adoro te ler...

Beijos

SPUK

Maria disse...

Kim
Todos os extremismos me metem medo.
Fanatismos religiosos, partidários, futebolísticos, acabam mal.
Eles bebiam às escuras, porque Alá não via? Que deus tão estranho!
História bonita e bem contada, como sempre. Andas virado para o passado? Fazes bem. O presente nada tem de bom e, o futuro...
Beijinho
Maria

Je Vois La Vie en Vert disse...

Ah, as tuas aventuras ! Continua a partilhar todas connosco porque são inigualáveis ! (Isto diz-se ?)
Aquela do beber às escuras para o Alá não ver é demais ! Tal como a Maria, os fanáticos assustam-me. Na minha religião, a católica, também há as devotas que passam o seu tempo com o Terço na mão recitando palavras que nem elas próprias escutam enquanto criticam todos que estão à volta e até o padre... esquecendo que o nosso Deus vê tudo ! Será para serem perdoadas ? Eu confesso que...adormeço na cama após o 3º Pai Nosso...Que Deus me perdoe !
Escrevendo isso, lembrei-me do titulo do teu post...então, como estou às escuras na cama, ninguém vê.... ;) LOL
Beijinhos, meu amigo que passa o seu tempo cantarolando em francês para o nosso bem prazer !
Verdinha

Fernanda disse...

Mesmo amigo - As aventuras de Kim-Kim

Eu acrescentaria as incríveis aventuras, embora eu acredite cegamente que é verdade!!!

Para começar pelo princípio, eu que sou agnóstica, não vejo nada de transcendente no facto dos "tipos" beberem às escuras para que o Alá não os visse...
Os ditos católicos, confessam os seus pecados para voltar a pecar... não faz mal, Deus perdoa, mesmo que o que sofreu continue sem um pedido qualquer de desculpas que seja.

Este é um tema quente, mas gostei da forma como foi abordado.

Das aventuras só peço mais. Adorei.
Conhecemo-nos há pouco, mas já sei que estou na presença de alguém muito viajado e com uma ampla e muito interessante vida vivida e a viver.
Gosto de gente interessante, que me contem vivências fascinantes.

Beijinho

Teté disse...

Ah, e eu que julgava que só existiam assim uns católicos cínicos, que iam à missa bater no peito a sua fé, e depois cá fora portavam-se como uns trastes... Alguns, evidentemente! :)

Mas esses acabam por ter piada: beber às escuras para Alá não os ver, é algo que nunca me passaria pela cabeça! :D

Grandes aventuras, estou a ver... ;)

Beijocas, Kim!

Laura disse...

Olá querido rapaz do meu coração, ainda ontem estivemos juntos e ainda hoje te leio, ah, só tu para levares aqueles dois pouco tementes a Alá...

e por falar em Alá, quando estávamos a chegar à Ericeira, paramos no meio do trânsito e ao lado um Bus com os dizeres da empresa, Alibábá, levavam passageiros, e ali mesmo desatei a rir pois era tal e qual; Ali-bá-bá e os quarenta Ladrões...

Kim, mas tu levaste mesmo aqueles dois no carocha? e com a carta Portuguesa sem licença de conduzir no estrangeiro? e nunca foste apanhado? claro que não! rapaz e nem digas que não és o rapaz da sorte!

beijinhos. Amei estar com todo o grupo, fica sempre uma saudade imensa.

laura

Janita disse...

Olá Kim!

Grandes e arrojadas aventuras as tuas! E ainda tu me chamas destemida..lá audaz também eu sou, mas a minha vida comparada com a tua é assim como esse Carocha ao pé de um Alfa Romeu.

Olha Kim, com fanatismo ou sem ele e como não estamos aqui para fazer juízos de valor, o que interessa é que eles e tu lá iam emborcando o whiskizito e a luz apagada até dava jeito, que assim não viam quem bebia mais...

Logo que não haja violência, cada um que acredite no Deus que quiser e pratique os rituais que bem entender. Tenho a certeza que concordas comigo.

Pois venham de lá mais episódios das aventuras do nosso Kim-Kim...

Beijinhos rapaz.

Janita

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

sempre desconfiei de fundamentalistas e beatos, amigo Kim. Normalmente, quando estão em roda livre, são bem piores do que os "pecadores"...

Anamaria disse...

essa história é ótima, Kim!!ahahah ainda estou rindo, imaginando a cena....Beijinhos!

Zé do Cão disse...

Lindo texto, belas aventuras.

Dos árabes sou tenho inveja de uma coisa. o "alburnoz" ou lá como se chama e escreve aquilo.

É que, no verão, quando vestido, dá-nos uma sensação de liberdade do caraças.
Dentro dele, tudo abana, tudo está largo e às vontade. E então, num fim de tarde no verão é uma maravilha.
abraço

rosa-branca disse...

Olá Kim, rapaz de aventuras lá que eras audaz eras sim e esse espírito aventureiro se calhar acompanhou-te e protegeu-te sempre. Fiquei a imaginar a cena ...realmente o que é a mocidade...mas no fundo o que é preciso é que tudo tenha corrido bem e quanto à religião...cada qual acredita no que quer. Tenho que confessar que se passaste por tudo isso e nunca foste apanhado é porque és um homem de sorte. Adorei a historia. Beijos com carinho