Amsterdão, Fevereiro 1971
A neve continuava a cair em pequenos flocos, para lá da vidraça.
A janela enfeitada por uma cortina vermelho-sol, saída da rota da seda, clareava o minúsculo quarto onde tudo acontecia.
Doze metros quadrados de intimidade, no máximo, eram o mundo de Jasmyn. O nome europeizado pela sonoridade, era vietnamita pelo berço e holandês por ambição.
Ali era cozinha, sala, quarto, casa de banho.
Não era a primeira vez, mas seria a última, que eu ali ficava refastelado no quentinho da policama, enquanto Jasmyn ia trabalhar.
A cozinha dum restaurante asiático, provavelmente também vietnamita quanto ela, era a fonte do seu sustento.
Despediu-se de mim com um beijo na testa e uma carícia no rosto. Partiu. Quarenta anos de mulher, duas vezes de mim, deixavam para trás um desejo saciado e fenecido, na esperança de outro no regresso.
Lá fora o frio convidava o guerreiro do amor a repousar da diaforese havida, mais bélica que apaixonada. Depois era só puxar as orelhas aos lençóis e estender a tolha de mesa sobre o colchão impregnado de odores perenes.
Deitado, ora adormecendo, ora preguiçando, olhava aquele liliputiano mundo que conhecia já de sobejo e pensava em como ocupar o resto do dia, quamanho era o meu tempo.
Na escada do prédio, o cadenciado barulho de passos fez-me convergir o olhar para a porta do quarto. Um tornear de chave e maçaneta fizeram-me gelar. Especada à porta do quarto, uma jovem asiática, aparentando os meus vinte anos, franze o sobrolho de espanto. A visão dum desconhecido naquela cama, não menos espantado que ela, fá-la hesitar.
Fecha a porta sem tirar de mim o olhar. Quem és tu, quem sou eu? Alain (Kim) e Lyn, apresentam-se.
- A Jasmyn não está? Demora? – questiona Lyn.
- Não! Foi trabalhar e só volta no final da tarde!
- Hummm!!!
Eu, tronco nu, meio recostado na cama, olhava aquele rosto lindo adornado por um alvíssimo longo casaco peludo. Nada denunciava o escultural corpo que este cobria. Despiu-o e lentamente depositou-o num minúsculo canapé de bambu, decidida a não sair tão cedo.
Aquela visão logo me fizera não mais pensar em quem seria Lyn e como obtivera a chave do quarto.
- Sou uma amiga de Jasmyn – respondeu, como que adivinhando a minha dúvida.
O seu sorriso, dissipara-me receios infundados.
Apesar de Jasmyn nunca me ter falado de Lyn, já que esta tinha a chave do seu mundo, passaram-me pela cabeça várias hipóteses e por que não companheiras de quarto.
Lyn, tinha tanto de morena como de linda. Olhos já vividos e corpo desbravado.
O “meu” inglês não bastava para uma conversa formal, mas ia resolvendo e colmatando com aquilo que os sorrisos diziam.
Olhava-a, desejando tudo e esperando nada.
A exiguidade do espaço foi pretexto para sentar-se na beira da cama. Trocaram-se pequenas confidências e descobertas em olhares matreiros.
Aos poucos me enfeitiça e desliza no meu leito. Vai tomando conta de mim. Sinto-lhe as hormonas em ebulição. Quase me limito a olhar, lutando contra mim.
A linha que separava a provocação, do desejo, era ténue demais para não ser entendida.
A sua linguagem corporal, agressiva e sedenta, continuava a povoar-me os sentidos.
Por instantes pensei em Jasmyn, com quem não tinha qualquer espécie de compromisso, nem na vida, nem no leito. Aliás, tive sempre a impressão que lhe amenizava a entrada na meia idade, fazendo-a recordar o muito que tinha ainda para dar. Apenas por instantes, pois logo num recíproco impulso felino, se devoraram as bocas e esmagaram os corpos. O meu, extremamente maleável, sucumbia àquele proficiente e insaciável apetite saído dum conto de Boccaccio.
Depois passaram as horas e esquecemos o tempo que o tempo tem.
Era já tarde quando adormecidos num abraço, despertámos com o abrir da porta.
Era Jasmyn. Chegara. Menos cansada que nós. Olhou-nos com um sorriso de ódio. Alguns longos emudecidos segundos separaram os olhares entre a porta e a cama.
Jasmyn, conformada, deixou escapar:
- Olá Lyn!
- Olá mãe!
O que mais se disse é passado. O que ficou por dizer não importa.
Afinal, recordar - é viver! In - As aventuras de Kim-Kim!