2 de junho de 2013

Táxi para o Colombo!

Há poucos dias apanhei um táxi nas Portas de Benfica.
Entrei no dito e informei o motorista que pretendia que me levasse ao Colégio Militar, para não dizer Centro Comercial Colombo. Pretendia eu comer uma bifana na praça que habitualmente ali nasce em dias de futebol, o que era o caso.
O motorista falava pelo telemóvel com alguém aparentemente muito chegado, pareceu-me a mulher.
Lá continuou a viagem com se eu não existisse, sempre falando, ora num tom lamuriante, ora num tom desesperante.
Aos poucos comecei a questionar-me sobre o motivo pelo qual me estaria a levar em sentido bem diferente. Passou a estação de Benfica e dirigia-se já para Monsanto, quando lhe toquei no ombro e voltei a lembrá-lo que eu queria ir para o Colégio Militar. Surpreso e humilde, desligou finalmente o telemóvel e fazendo inversão de marcha, desculpou-se em todas as direcções. 
Começou então a desfiar o rosário do seu calvário.  
O filho tinha abandonado o país e a família, sem sequer se preocupar com a responsabilidade que o seu velho pai tinha às costas, por ter sido seu fiador na compra da casa.
Penhoraram-lhe uma boa parte da pequena reforma e estava agora obrigado a fazer umas horas ao volante dum táxi de alguém conhecido. De seu, já nada tinha. 
Já não lhe bastava carpir as maleitas que a terceira idade é pródiga em fazer chegar, como também agora tinha de pagar pelo incumprimento dum filho que abandonou o barco. sem dele não mais se conhecer o poiso.
Era disto que falava ao telefone e o que o fez perceber Pupilos do Exército em vez de Colégio Militar, foi exactamente a intranquilidade que a sua cabeça já carregava.
Estava perdoado o pobre homem, aquele que por momentos quase me irritou, não só pela corrida mais cara que acabei por pagar (porque quis) mas também por quase me ter ignorado enquanto passageiro.
Às vezes - esqueço-me de ver o que existe para lá de outros olhares, de outras vidas, de outras gentes.
Penitencio-me então!

15 comentários:

papoila disse...

Pois é...ás vezes somos muito críticos "antes de tempo" ao sabermos a história completa tudo fica mais suave...
Soube que um amigo de infância morreu num acidente de mota iria a alta velocidade? Talvez...mas certo certo é que a cabeça é que ia a mil cheia de problemas.
xx

São disse...

Tanta coisa se esconde para lá de um primeiro olhar...

O meu abraço solidário para esse pai posto em difícil situação por um filho irresponsável.

Para ti, desejo de boa semana

Teté disse...

O homem não tinha um filho, mas uma cruz! Bem carregada, por sinal!

E sim, muitas vezes ajuizamos os outros apressadamente, mas é um erro humano, que podemos redimir com maior ponderação... :)

Beijocas, Kim!

rosa-branca disse...

Olá Kim, é meu amigo, por vezes temos que voltar com o pensamento atrás e quando nos queixarmos, pensar que por vezes ali ao lado há pior...bem pior que a nossa cruz. Acontece por vezes eu perguntar:-
Porquê a mim?
Tiveste a meu ver a atitude certa. Coitado desse pai que para além de enfrentar os problemas que dão a idade, ainda tem essa cruz. Beijos com carinho

verdina disse...

Às vezes temos que pensar que os nossos problemas são tão pequeninos em relação aos problemas dos outros.
Que crueldade da parte dum filho cheio de energia e de futuro à sua frente deixar o pai com todos os problemas que não foi capaz de enfrentar. Mais um caso dum filho que abandona os pais e foi ele que os deixou cair no fundo dum poço !
Fico triste em saber desta juventude egoista e irresponsável.
Beijinhos, Kim
VERDINHA

SEVE disse...

Tal como aquele homem que pisou um indivíduo e não lhe pediu desculpa, o que lhe valeu a vida (uma facada no coração) - era surdo-mudo!
Aconteceu há anos em Lisboa à saída dum autocarro na Boa Hora em Lisboa.

Mona Lisa disse...

Pois..."Quem vê caras não vê corações".

Triste , infelizmente o "pão nosso de cada dia"!

Lamentável foi a forma como o filho deixou a "bomba rebentar" nas mãos dos pai!

Beijinhos.

redonda disse...

Achei admirável ter conseguido ouvi-lo e ter pago o valor a mais (gestos assim às vezes só me ocorrem a posteriori, mas tenho uma irmã que também admiro por ter essa sensibilidade).
um beijinho
Gábi

Zé do Cão disse...

Se eu fosse taxista e fosses tu benfisquista ferrenho o meu passageiro, dado os problemas que me afectam, levava-te decerto para a Casa Amarela em Barcelos.
Senti pena do "desgraçado", infelizmente há milhentos casos por aí.
Abraço,

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Eu compreendo a situação e também teria pago a corrida, mas uma pessoa que conduz um taxi tem bastantes responsabilidades, amigo Kim. E se a falar ao telemóvel enquanto conduzia tivesse um acidente?
Abraço e bom fds

elvira carvalho disse...

É amigo , hoje em dia há muito idoso tramado por causa dos filhos e faz com que outros vivam sempre como se costuma dizer de coração na mão.
Também somos fiadores do nosso e em algumas alturas já tivemos que lhes pagar a prestação para não entrarem em incumprimento.Acontece que eles cada dia têm mais responsabilidades e cada vez ganham menos.
Antigamente os pais tinham sempre a esperança de que na velhice os filhos pudessem dar uma ajuda. Actualmenmte muitos pais privam-se até do essencial à sua subsistência, para ajudarem os filhos e netos.
Um abraço e tenhamos fé de que um dia isto acaba.
E a sua vista? Faço votos de rápida recuperação

Anamaria do Val disse...

Você é mesmo uma pessoa gentil, Kim. Outros no seu lugar nem se preocupariam com os problemas do taxista! Beijinhos

Catarina disse...

Por vezes é difícil não levarmos os problemas para o local de trabalho.
Bom fim de semana, Kim.

Janita disse...

Dramas e desventuras cada vez mais frequentes, Kim!
Sofremos muito mais quando somos traídos pelos que mais gostamos: os filhos.
O que esse filho fez foi uma traição!
A tua atitude solidária não me surpreende, meu amigo. Já te conheço!

Beijinhos querido Kim.

( os teus olhos?)

Parisiense disse...

As vezes deveríamos abrir primeiro os olhos da alma.....mas como te conheço sei que foi o que fizeste, Kim.
B
ISOUS DE TA BLONDE PARISIENSE