Sei bem que estava na fase madura da minha vida e não sendo ainda condor também não era propriamente ave de rapina, mas ...Talvez tocado por Afrodite, trilhei sempre caminhos plenos de paixão, ora a dar, ora a receber. E se bem que os meus olhos apenas vissem o paraíso onde reinava essa coisa maravilhosa chamada mulher, não conseguia evitar que algumas pessoas (homens e mulheres) se fossem atravessando, tentando a sua sorte.
Foi neste contexto que certo dia, um rapazola que diariamente se debruçava á janela do primeiro andar onde morava e quase diariamente tentava acertar-me com o fulminante do seu olhar sem nunca me atingir nem sequer de raspão.
Habituado que estou, desde sempre, a tudo fazer para colmatar as necessidades de não importa quem, eis que um dia este jovem (ele teria vinte e poucos anos e eu quase quarenta) entra no meu escritório e delicadamente pediu-me se eu não me importava de lhe preencher, à maquina ou em computador, um envelope que ele pretendia enviar para uma Sexshop na Holanda.
Meio embaraçado com semelhante pedido, acedi.
Fui ao computador, escrevi o remetente e o endereço, mandei imprimir e eis que o envelope fica prontinho. Entreguei-lho e verifico que ele fica a olhar para o envelope sem nada dizer. Pergunto-lhe se está tudo bem e finalmente arranja coragem para me dizer:
- É mesmo isto que eu quero, mas se não se importa preencha-me outro e escreva o endereço um pouco mais à direita.
Perplexo com o pedido e sorrindo para dentro, fui ao computador, empurrei o texto mais para a direita e imprimi outro envelope, que lhe voltei a entregar.
Olha para o envelope, fica a olhar para mim e com gestos e linguagem próprio de quem prefere os homens em detrimento das mulheres, quase implora.
- Ai meu senhor, está óptimo mas se não o incomodasse muito pedia-lhe para puxar o endereço mais para cima.
Perante isto e a transbordar de apetência evangelista, fiquei danadinho para ver até onde é que iriam os seus pedidos. Lá fui preenchendo envelope atrás de envelope, já que havia sempre algo que não estava a seu contento, até que ao sétimo dia, aliás envelope, o seu sorriso se abriu.
- Que maravilha! Agora está excelente! Por favor, diga-me quanto lhe devo?
Com alguma pena por não poder testar até onde iria a minha paciência, respondi-lhe:
- Não deve absolutamente nada!
Surpreso com a minha benevolência, insiste:
- O senhor teve um trabalhão e não me leva nada porquê!
Quase sem pensar, a minha veia diplomática iluminou-me e respondi:
- Porque há coisas que eu só faço ... por amor!
Ainda hoje o vejo regularmente mas julgo já não estar por mim apaixonado!