26 de outubro de 2007

O Bicho e as gatas







Há dias, num almoço de amigos, apareceu esta inesperada sem-abrigo.
Garrafa na mão, gata nas costas, ódio na mente.
É o abandono, a solidão, a miséria, a revolta.
O Gigi, a Maria, O Jacques e a Cristina, olhavam pensativos o instantâneo que me ufanava.
Salvou-se a postura do animal, que não vacilou ao ziguezaguear da ébria.
Quem não suporta o peso dos homens, anseia pelo dos bichos.

Sei que não vou por aí!

25 de outubro de 2007

Amsterdam - 9

(vinte anos depois, voltei ao Hotel Cok, com o Gigi e outros amigos)

O meu novo emprego começava às sete da manhã.
Vinte minutos a pé até à estação e outros tantos de comboio até à fábrica, davam-me manobra para poder sair do hotel, uma hora antes.
Ao que me foi explicado, situava-se quase frente à estação.
À minha saudação de – bom dia Mr Urgens, obtive como resposta, uma mão no ar segurando um pequeno saco igual ao do dia anterior.
Mais uma vez a primeira refeição era servida ao sair da porta.
- Apenas cumpro o meu dever, Alain! Na impossibilidade de tomares o pequeno almoço aqui, acho de toda a justiça que o tomes noutro lado. Assim, aqui o tens! Está incluído na diária.
- Diária? É verdade! Já nem me lembrava disso. Só paguei dois dias!
- Não faz mal, eu aguardo! Pagas quando receberes! Confio em ti!
- Obrigado! Então até logo, depois falamos!
Desta vez o saco parecia mais pesado. Verifiquei durante o trajecto que a dose fora aumentada. Mais um pão e algumas bolinhas de queijo!
Àquela hora da manhã o movimento na Central Station parecia o dum formigueiro.
Koog Zaandijk era a localidade onde se situava a “minha” nova fábrica. Estava ansioso para começar. Nunca o trabalho me causara temor.
Já sentado à janela, com a paisagem a fugir-me em sentido contrário, matraqueado pelo monocórdico som de rolamentos barulhentos, recuo à infância e volto a pensar num ror de coisas e no alerta constante do Padre Nobre – meu menino, lembra-te sempre que a preguiça é a mãe de todos os vícios!
O menino nascido em berço humilde mas a quem nada faltou, viajante errante habituado à leveza do acaso, estava agora a tornar-se um homem prestes a ser operário como tantos que conhecera.
Sendo assim, nada havia que temer. Adelante!Adivinhei os passos da gente jovem que caminhava à minha frente e segui-os. Não me enganei. Também eles se dirigiam para as enormes instalações que se estendiam à nossa frente.
Koog Zaandijk era uma certeza, despida e fria.

24 de outubro de 2007

Amsterdam - 8

No regresso ao hotel, senti-me dono da situação. Mais uma vez o meu anjo da guarda me amparou e alimentou a audácia.
Não pude partilhar esta alegria com Mr. Urgens. Só entraria no turno da noite.
Com o ego em alta, estava agora mais disponível para responder aos olhares e solicitações das esbeltas vikings. Sim, só das esbeltas, porque algumas havia que quase não se percebia serem homem ou mulher.
A escolha era vasta. Podia voltar a dar-me ao luxo de escolher. Parecia um ritual satânico. Qual vou comer? Começo por onde?Pensando bem vou até ao bar. Estou num mundo novo e devo continuar a guiar-me pelos ditames do bom senso.

- É melhor deixar-me destas coisas de quem é que como, pois não tarda nada estou a ser comido. Vou apenas olhar e o que tiver de ser, será. Quando a montanha vier a Maomé, saberei subi-la.Assim fiz e naquele mesmo dia subi a primeira montanha.
Não guardo grandes recordações dessa montanha. Quase não foi necessário subi-la. Foi meia-bola e força.
O romântico e sonhador Alain, não teve direito a carícias, beijos cúmplices e ofegantes, antes sim a uma carnificina voraz sem sentido de, anda cá - já está.
Tal como temia, fui devorado num instante!
Desejamos sempre aquilo que não temos. Quando me calhava uma mosca morta e não podia voltar atrás, ansiava por uma rebelde que me rasgasse os vícios. Quando a tinha, desejava apenas carinho e afecto, antes de...
Aquele quarto era tudo, menos um ninho de amor. Nele, não havia privacidade nos momentos íntimos. Quem estivesse por perto limitava-se a assistir ou a ignorar.
Assim também eu fiz quando o mesmo se passava a meu lado, ou uma fétida seringa entrava em negras veias já sem corpo. Ignorava!
Mergulhando nos diálogos comigo, volto a repensar no meu percurso de vida e na aventura que ali me levara.
Tenho de reaprender a viver, jurei a mim mesmo. Isto não volta a acontecer. O caçador passara a presa. Não, nem pensar. Vou-me deixar caçar quando entender.
Voltei à realidade. Mr Urgens estava de volta. Contei-lhe o sucedido e felicitou-me pelo que estaria para vir. De soslaio medi-o de alto a baixo e sinceramente não tinha pinta de bicha.
O soldo pago pela agência leva-me ao luxo de comprar os meus cigarros preferidos, Peter Stuyvesant.
Parecia agora igual a todos os outros. Quem não fumasse e não bebesse, não pertencia àquele mundo. Cigarro nos lábios, emprego quase certo, mulheres por todo o lado. É fartar vilanagem!
Bem, já que me encontro numa fase de devaneio e futuro risonho, é melhor jantar pois amanhã é um novo dia. Aguardemos o que me espera.
Devo ter voltado a jantar frango barrado com doce de qualquer coisa e aguardei que Mr Urgens estivesse disponível.

23 de outubro de 2007

Amsterdam - 7

Chegado ao local, constatei tratar-se duma tipografia totalmente especializada em material pornográfico, o que era perfeitamente normal e legal naquele país.
Perguntaram-me em holandês, algo que não entendi. Entreguei o envelope que me foi dado na agência e esperei.
Depressa as ilusões caíram por terra. A vaga estava preenchida havia dois dias e só por lapso a agência me poderia ter indicado aquele emprego.
Desiludido mas decidido, regressei pela mesma via, vingando–me no conteúdo do resto do saco.
Tenho todo o tempo do mundo e o parco pecúlio que ainda me resta terá de esticar, logo, mais uma caminhada no regresso não me fará nada mal. Afinal andava à descoberta da cidade, portanto era um trabalho de pesquisa. Vistas as coisas desta forma, o alento subia.
Cansado de falar comigo, fui regressando e olhando, agora com mais calma.
Seriam duas horas da tarde quando voltei à agência. A italiana feiota, que agora me atende, não é a mesma do dia anterior.
Explicada a minha aventura de não ter sido colocado na tipografia, porque a vaga estava preenchida, um telefonema para um lado e outro para outro, resumiram o nosso diálogo a um simples sorriso à laia de desculpa.
Consultou o ficheiro de clientes, anuiu com a cabeça e respondeu:
- As nossas desculpas pelo sucedido! Foi um lapso tremendo e garanto-lhe que não volta a acontecer. Vamos já resolver o problema, aguarde um pouco!
Alguns minutos depois, entrega-me um pequeno papel com nova morada e algum dinheiro que já não lembro quanto.
Fico incrédulo! Não entendo o porquê daquela paga!
A feiota italiana explica-me então que aquela verba correspondia a um dia de trabalho, mais o pequeno almoço e ainda o preço dos transporte de ida e volta para a tipografia.
Como eu via mal, meu Deus! Mr Urgens – bicha! A italiana – feiota!
Como é que uma pessoa que acaba de me entregar uma quantia que em situação de racionamento me daria para viver largos dias, pode ser feia? Qual feia, qual carapuça! Era linda, a mulher! Linda, de morrer!
E ainda por cima pede desculpa e coloca-me noutra empresa!
Sem o ter percebido, estava garantida a minha sobrevivência nos tempos vindouros.

22 de outubro de 2007

Amsterdam - 6

A noite foi mal dormida.
O hotel não tem serviço de despertar, pois em cada quarto dormem oito jovens, e acordar um significaria acordar os restantes.
A preocupação de me levantar às seis, fizera com que eu, intermitentemente, acordasse.
- Bom dia Mr Urgens! Parece que já estou um pouco atrasado!
- Bom dia Alain! Ainda tens muito tempo! No máximo vais demorar uma hora a chegar lá!
- Não é bem assim! A tipografia fica fora da cidade e eu nem a cidade conheço!
- Está bem, mas conforme te expliquei é só seguires o percurso do vinte e um – direcção Zeeburgerdijk. E como o refeitório ainda está fechado, preparei-te este saco. Toma!
Lá dentro, dois pães de leite, duas miniaturas de manteiga e outras tantas de geleia, eram o tónico que precisava para a caminhada que se avizinhava. Agradeci e despedi-me.
À distância parecia um gesto normal, mas aquela preocupação agradava-me sobremaneira.
Três quarteirões mais à frente, lá estava a paragem do vinte e um. Agora era só seguir-lhe o rasto.
Abri o saco e despejei uma miniatura de geleia e outra de manteiga dentro dum pão rasgado com os dedos.
Na Holanda o almoço é uma refeição frugal. Quase inexistente. Havia que guardar o segundo pão para esse momento. Assim eu fora capaz. Quando havia, havia, quando não havia, não havia. Má visão da situação, como sempre fiz. A adrenalina pedia-o.
Sem perder o Norte do meu destino, o gesto do saco do pequeno-almoço afloraram-me à ideia coisas que me pareciam sem nexo, ou talvez não.
Quando um homem já viveu muito em pouco tempo, quando está só e o pensamento tem espaço para se espraiar, mil incertezas nos invadem.
De repente já não havia Mr Urgens. Era aquele gajo. Tão simpático, tão porreiro, tão amigo. E pensava! 

Se calhar é bicha!
Vá lá não sejas assim! O homem está só a ajudar-te e tu levas logo isso para outro lado! – respondi a mim mesmo.
Será que é? Será que não? Lembrei-me então que numa das nossas conversas, me alertou que as nórdicas tinham muita queda para os latinos e que assim sendo, eu iria ter dias muito agradáveis em terras da Rainha Juliana.
Esta pequena lembrança deixou-me mais animado.
O surdo monólogo fazia-me atravessar rua após rua sem quase me dar conta do que já andara.

A linha do vinte e um levara-me efectivamente à morada pretendida.

21 de outubro de 2007

Kim Bond - Agente Infiltrado


A bond Girl era linda!
À minha chegada, James guardou a arma e ...
O resto? Vejam o filme!
Kim Bond – Agente Infiltrado.
Estreia a 12 de Janeiro de 2008, numa sala de cinema perto de si.

20 de outubro de 2007

Amsterdam - 5

Esta cidade agradava-me francamente.
Passei a manhã à descoberta de tudo e de nada, não muito longe dali.
- Bonjour Alain, ça va toi? J’ai quelque chose pour toi !
Mr Urgens, acabara de chegar e confessa-me que pensara em mim.
- Sabes, lembrei-me duma Agência de trabalho temporário para estudantes e acho que deves ir lá.
- Então e onde é que isso fica? Perguntei entusiasmado.
- Não muito longe daqui – respondeu.
Olhando o mapa da cidade, ambos tentávamos descobrir o local onde se situava a agência de empregos.
Trocámos mais umas impressões sobre esta possibilidade que se me deparava e saí na busca do incerto e vago.
Depois de uma hora à procura da tal empresa, encontro-a finalmente.
Disse ao que ia e após responder a pequenos quesitos, imediatamente me arranjaram um emprego numa tipografia. O local era longe dali e combinámos que lá me deveria apresentar no dia seguinte, às oito da manhã.
O resto do dia transformou-se num beco de ansiedade e numa ruela de esperança.
Quando regressei ao hotel, ameaçava anoitecer.
Mr Urgens desdobrava-se em multi-funções de estalajadeiro. Um grupo de jovens dinamarquesas acabara de chegar ao hotel e procedia-se à logística de alojamento das patrícias de Andersen .
Um ror de mulheres, que mais parecia uma algazarra de crianças, inundava a recepção. Eu, ali de pé, respondia com sorrisos aos primeiros olhares marotos.
Mr Urgens não tinha mãos a medir. Dei-lhe um toque no ombro e de polegar em riste agradeci-lhe dizendo:
- Colocaram-me numa tipografia, tenho de lá estar às oito da manhã. Assim que começarem a servir as refeições vou jantar e depois vou deitar-me, pois como vou a pé para lá, terei de sair daqui por volta das seis.
- OK. Vou estar de serviço esta noite. Quando saíres ainda cá estarei. Depois falamos!
A vida tem destas coisas. Conhecia-o há dois dias e já parecíamos os melhores amigos do mundo, apesar das duas gerações que nos separavam.
Pouco depois, utilizei a segunda senha de refeição e para variar, jantei frango barrado com doce de morango.

18 de outubro de 2007

Amsterdam - 4

Parecia que Mr. Urgens me esperava.
A imponência da sua figura sobressaía por detrás da recepção do Cok.
- Então jovem, já foi conhecer a cidade?
- Já dei uma volta!
- O que é que faz aqui um jovem sozinho, vestido de forma tão convencional?
- Bem… sabe … é que, eu sou português. Apesar de, até agora ter vivido em Paris, decidi alongar o olhar e aqui estou. Quanto à roupa é uma forma de estar. Entre as “passerelles” de Paris e as flores de S.Francisco, prefiro a primeira.
- Em Paris? Não acredito! Adoro Paris! Então você vai ser o meu professor! Não se importa?
- Professor, como?
- Passamos a falar apenas em francês!
Tal situação agradava-me porque falava inglês como uma vaca espanhola e esperava praticar, mas ao mesmo tempo era agradável ter alguém com quem falar a minha segunda língua. Olhei-o sorrindo e respondi:
- D’accord monsieur!
Em poucos minutos o ibero calor derreteu o gelo do norte.
As palavras seguintes, adocicadas por uma empatia mútua, desdobraram-se em desabafos e desejos e quando demos por nós, já conversávamos há largas horas.
Quando terminámos, Mr Urgens era o gerente do hotel, o dono da minha fome e o gestor dos meus passos.
Abriu uma gaveta, retirou uma caderneta de senhas de refeição do hotel, cortou duas pelo picotado e entregou-mas dizendo: - Eis a paga da primeira aula.
Aceitei com ambas as mãos e parti à procura da janta.
Um magote de mulheres bonitas, estudantes escandinavas, olhava-me como se homens não houvesse. Assim seria, todos os dias.
Uma princesa nua não me teria deliciado tanto quanto o frango barrado com doce de maçã, que saboreei lentamente.
Naquela noite jantei como um viajante endinheirado e deitei-me com os problemas resolvidos, pois vivia um de cada vez.
Amanhã? Era outro dia!

17 de outubro de 2007

Nós - os pobres




Dia Mundial de Combate à Pobreza, terá de ser todos os dias.
Dois por cento da população mundial, detém metade da riqueza do globo.
A outra metade, está distribuída por nós – os pobres.
E entre os pobres, há ainda os miseráveis.

Esta “molhada” de dinheiro, provém duma apreensão a traficantes de droga, essa outra miséria, a par da guerra.
Recolham-se gentes!
Às vezes - Deus, esquece-se de nós!

16 de outubro de 2007

Amsterdam - 3



Sonhando sonhos que não sonhei, adormeci sonhando.
A claridade que a janela, a meu lado, deixava passar, despertou-me para a nova realidade.
Ali estava, à espera de nada, sem saber por onde começar
À minha volta, três camas mais, estavam ocupadas. Não se percebia quem eram os seus ocupantes. O primeiro aspecto não me agradava de todo. Descobriria mais tarde que nem as vestes nem os cabelos tinham algo em comum, com o colegial menino que eu era.
Lentamente desci ao piso térreo e fui memorizando o meu novo mundo.
O pequeno almoço, girava à volta das tradicionais bebidas quentes e ainda dos queijos, das compotas e da manteiga.
Os restantes hóspedes exibiam os trajes do tempo de “flowers in the hair”.
A modernidade das instalações, amenizava o frio humano dos que ali se encontravam.
Na recepção, um jovem pouco mais velho que eu, dominava as entradas e as saídas.
O Cok Hotel, ficava muito bem situado. Bastante perto do centro, numa cidade completamente plana, como Amesterdão, facilmente se ia a qualquer lado sem grande esforço. Tempo, eu tinha demais.
Pelo mapa da cidade exposto no átrio, fiquei com a certeza de, para qual lado vaguear.
Os carris dos eléctricos, que mais pareciam a carlinga dum avião, levaram-me à porta de entrada nesta cidade – A Estação Central.
Aí estava eu de novo, já conhecedor do local. Não sabia o que fazer. Apenas, olhar, olhar, olhar.
Num banco consegui trocar o resto do meu pecúlio, de francos franceses, por florins, moeda local.
Uma pequena moeda foi suficiente para comprar um crepe chinês, de tamanho considerável e bastante bem recheado de legumes.
O crepe viria a tornar-se o meu alimento de eleição, quer pelo preço, quer pelo aconchego que o estômago agradecia.
Cansado de olhar, regressei ao Hotel, onde o jardim das traseiras me ajudava, em peregrinação interior, a trilhar os caminhos de Santiago.

15 de outubro de 2007

O Porto está lindo, carago!




Há muito que não ia ao Porto.
Por lá passava várias vezes ao ano, mas aí não me quedava.
Nunca fui muito ligado a esta cidade e as exacerbadas paixões clubísticas ajudaram a esse afastamento.
Às vezes, temos a solução ali ao lado e não a vemos.
È um pouco como ir para o estrangeiro e não conhecer Portugal.
Porto/Gaia, binómio de margens lindas, ao sabor de passeios de Domingo, alegraram-me a mente e empurraram as rivalidades que os espíritos mentecaptos conseguem trazer às nossas vidas.
E depois … é um velho casario, que se estende até ao mar!
Velho Porto, Rui Veloso, cantou-te ao amanhecer!
Redimo-me, Porto!
Vou amar-te mais vezes!

14 de outubro de 2007

Isa de Santa Maria


Gostei! Adorei!
A Estrelinha do Norte, que vem iluminando as minhas estórias e desabafos, é afinal uma cúmplice da ternura e da amizade.
Gestos largos, lábios rasgados por um sorriso menino, olhos profundos descobrindo além, atravessam-lhe a vida na busca incessante de mais querer.
Mulher de raça, determinada em pleno, tem ainda a sorte de, à sua volta, girar uma família espantosa sintonizada em comunhão total.
A Estrelinha do Norte, é também a estrela de David, seu fantástico marido.
Israel tê-los-á abençoado, porque geraram rebentos de igual quilate, Alexandra e David Jr.
I.R. – Isabel Ramos! Isa a Bela!
A três horas de mim, tão perto do coração!

12 de outubro de 2007

Amsterdam - 2


Descemos a escadaria, do prédio, um atrás do outro como se de carcereiro e recluso se tratasse. O velho Peugeot do Professor esperava-nos na penumbra. Anichei-me no banco da frente e seguimos para o centro da cidade.
Amsterdam, é uma cidade plana, lindíssima e cheia de jardins. Talvez propositadamente ou talvez não, íamos passando pelos locais mais movimentados enquanto o Professor me ia questionando sobre a minha aventura, a minha pessoa e o meu modo de vida.
Parámos finalmente. Nenhuma ansiedade se apoderava de mim, o que me permitia encarar o que estava para vir como algo melhor do que eu esperava. Cá fora um pequeno reclame luminoso identificava o paraíso: Cok Hotel – for students.
Na recepção um respeitável sexagenário parecia aguardar-nos. Interiormente logo o baptizei – Mister Urgens! Era o sósia dum actor alemão que eu adorava – Curd Urgens. Simpático e afável ouviu as explicações do Professor sobre a minha pessoa. Os vinte e tal francos que ainda tinha, depois de trocados por florins, davam para dormir naquele hotel, durante uma semana.
Agradeci e despedi-me do Professor. Nunca mais o veria. Foi assim com todas as pessoas que de uma forma ou outra me ajudaram no périplo saltitante dos quatro cantos do mundo.
À minha volta, logo no final do átrio, um pequeno bar tipo inglês e uma larga sala de lazer, completavam o espaço que o olhar alcançava.
Após alguma troca de impressões e cumpridas as formalidades que o hotel exigia, Mister Urgens, subiu comigo ao segundo andar e mostrou-me o meu quarto. Não era afinal o meu quarto, mas sim o quarto de oito pessoas, supostamente jovens. Quatro beliches, oito camas, oito cacifos e algum desalinho, explicavam o porquê de tão pouco dinheiro bastar para ali dormir alguns dias. Percebi então que cada quarto albergava oito jovens. Nada que me incomodasse! Estava num hotel-camarata, muito perto do luxo.
Aproximei-me da janela e um frondoso jardim saudou a minha chegada.
Depois, sentei-me na cama de baixo, do último beliche junto à janela, olhei em redor e estendi a alma em colchão divino.
Cok Hotel - Koninginneweg 30, Amsterdam - era a minha nova morada!

10 de outubro de 2007

As aventuras de Kim Kim - Holanda


... Bom Dia Amesterdão!


À minha frente deparava-se a Praça do Dam.
O símbolo fálico, no centro desta, aliado a tudo aquilo que já conhecia da cidade, lembrou-me que poderia ter acabado de entrar em Gomorra.
À minha esquerda, o Hotel Krasnapolsky, convidava-me a nele repousar, se para tanto o meu dinheiro chegasse. Curiosamente, alguns anos mais tarde, viria a nele me hospedar, com a carteira recheada e gravata bem apertada, em camisa de seda.
Era meu costume trazer uma lista de nomes e moradas de refugiados políticos que eram assinantes da Revista O Tempo e o Modo, qual pedrada no charco do regímen vigente, onde colaborei a convite da falecida Drª Helena Vaz da Silva, mais tarde minha comadre (madrinha do Bruno).
Sentei-me no redondel do Dam e puxei do papel mal dobrado onde constavam os nomes e moradas, dos meus eventuais protectores.
Ora deixa cá ver. Holanda … Amesterdão … cá está, Prof. Dr. José Rentes de Carvalho.
Indago onde fica a residência deste ilustre português e uns pequenos trocos são suficientes para apanhar um autocarro para a morada que aparece à frente do seu nome.
Entretanto, um crepe chinês, mitigou a fome que já se instalara no meu estômago.
Era preciso manter os sessenta e seis quilos que os meus cento e oitenta e quatro centímetros pediam.
O Prof Rentes de Carvalho, morava num bloco de apartamentos, tipo aparthotel com longos corredores. Toquei à sua campainha. Voltei a tocar. Nem vivalma!
Resignado a uma longa espera sentei-me no tapete da porta, encostei a cabeça à madeira fria e voltei a sonhar.
Era já velha a noite, quando senti a presença de alguém.
Um homem de baixa estatura, talvez quarentão, um pouco gordinho, estático, olha-me sem nada dizer.
Levanto-me e pergunto-lhe se é o Prof Rentes de Carvalho. Surpreendido por saber o seu nome, de sobrolho franzido, respondeu-me que sim, Explico-lhe então como obtive o seu endereço e qual a ajuda que preciso dele.
Apenas precisava que me desse umas “dicas” sobre a melhor maneira de sobreviver na Holanda. Onde dormir barato. Onde comer barato. Onde trabalhar a ganhar bem. Enfim, aquelas loucuras de quem não percebe nada da vida.
Ouvidas as minhas explicações e perguntas, coçou a careca e desabafou:
- Você é louco!!! Bem … venha daí!

9 de outubro de 2007

Julgo - logo existo!




Mais de seiscentos convidados encheram a sala de cinema do Casino Lisboa, para a ante-estreia do filme de Leonel Vieira - JULGAMENTO.
Filme francamente realista e actual, inundado de grandes planos bem sucedidos, superou todas as minhas expectativas.
Júlio César, primeira figura desta “estória”, provou-me que nem só de pão vive o homem, numa faceta que eu desconhecia.
No cômputo geral, trata-se dum filme com um elenco notável e desempenho soberbo de duas ou três personagens.
No final, quando as luzes se acenderam, eram muitos os beijos e abraços a felicitar os actores. JC e Leonel Vieira eram os mais requisitados.
Quando me preparava para abandonar o local e deixar o Júlio entregue aos VIPS e às luzes da ribalta eis que o meu telefone toca.
- Quim, onde estás? Anda para o pé de mim!
O Júlio tem destas coisas!
Às vezes, surpreende-me porque … Outras, surpreende-me porque …
Parabéns amigo! Estiveste fabuloso!
À Cândida Vieira, Directora de Produção um grande beijinho.

7 de outubro de 2007

O Anjo da Guarda


Olá meninas!
A Maria José e a Patrícia, são o rosto do meu Anjo da Guarda.
Outros aqui caberiam. Como não se vislumbram por perto, omito-os, por ora.
Em algumas das minhas viagens, são elas que me amparam, como se pode ver na foto.
Aqui, na cidade de La Valleta – República de Malta, registei o momento para que a memória não esqueça
Burgueses, malteses e às vezes!!! Quem viu o filme?
Merci Marie José!
Inch Allah Paty!

5 de outubro de 2007

Julgamento





O Julgamento vem aí.
Julguem o que quiserem. Eu julgo que vale a pena.
Júlio César, no papel principal, e Henrique Viana no derradeiro acto, aguçam o apetite a quem os quiser julgar.
Julgamento – ante-estreia dia 8 de Novembro no Casino de Lisboa. Estreia dia 11 de Novembro em vários cinemas.
Boa sorte para ti Júlio!
Lá do alto, o Henrique, no seu palco etéreo, dirá o mesmo.
Está na hora de acordar o passado.
O JULGAMENTO FINAL ninguém vai perder!

4 de outubro de 2007

A Bela e o Monstro




Raul Solnado e Manuela Couto, na Ilha dos Amores do Kim Kim, com receio de serem esmagados pelos elefantes alados do Bruno.
Este poderia ser o cartaz do último filme destes duas grandes figuras do espectáculo?
Não! É apenas um diálogo de estrelas, quando há dias, se encontraram no meu escritório.
Agora, que terminaram as filmagens da Ilha dos Amores, é tempo de dizer aos Açores – adeus, até um dia!
Manuela, menina alegre, actriz sensacional e mulher maravilhosa. A estrada da Sétima Arte, estendeu o seu tapete à versátil e contagiante actriz, que o sorriso denuncia “avec sa joie de vivre”. Tremendamente bem disposta, vai subindo os degraus da fama e do estrelato, com a singeleza própria dos que foram tocados com a mão de Dionísio.
Raul Solnado, sobre ela, confidenciou-me um dia: - Eis a futura primeira dama dos palcos portugueses.
Pedro, seu marido, geólogo, ­­cientista da terra, vai tentando descobrir a razão das catástrofes naturais no mundo. E foi talvez a pessoa com quem, alguma vez, mais empatia criei ao primeiro contacto.

Manuela Couto – A Bela, que não atravessa o deserto para subir ao Olimpo.

3 de outubro de 2007

Bom Dia Amesterdão!


Já a pensar em nova aventura, adormeci a sonhar com as amigas que nunca mais voltaria a ver.
Dos amigos não falo porque apenas tinha um - o Martin (Zeca) que viria a morrer precocemente, aos trinta e três anos. Não tinha mais ninguém, de quem me despedir.
Todos os dias eram preenchidos por rostos desconhecidos.
Várias perguntas me assaltavam o sonho. O que viria a seguir? Que ânsia era aquela de partir à procura de tudo e de nada? Onde iria dormir? E comer?
Apenas tinha a certeza que não iria morrer de fome. De que forma? Isso, ver-se-ia a seu tempo.
Bem … poderia ter evitado estas perguntas, se não tivesse dispendido quase todo o meu pecúlio. Mas, se o não tivesse feito, onde estava o incerto? Era isso que me fazia querer abraçar o mundo, sem ter braços para tanto.
Aos vinte anos, o mundo parece-nos pequeno. E é. Acabei por constatá-lo.
Com o Norte a chamar por mim, quase não olhei para Bruxelas.
Aos poucos ia deixando Le Plat Pays.
O comboio proporciona-nos estes momentos. É sair ou continuar.
Em Antuérpia hesitei e pensei ficar por ali. Os diamantes que lá se transaccionam convidavam-me a uma bela mas não menos perigosa aventura. Assim sendo, entre perigo e aventura, optei pela segunda.
Dormitei um pouco mais e quando voltei a acordar, estava já no meio dum mar de túlipas.
À esquerda e à direita, rectângulos enormes de coloridas túlipas de cores variegadas, abriam-me os olhos de espanto. Uma indómita vontade da ali ficar começou a apoderar-se de mim. Os moinhos e a planura dos verdes campos entrecortados pela panóplia de cores estonteantes, tiraram-me todas as dúvidas. Sem o saber, estava a chegar ao destino, apesar de ter destino pago até uma qualquer aldeia dinamarquesa.
Uma cidade de baixos prédios desponta mais além. O aproximar desta parecia-me ser visto pelo zoom da minha Sony.
Parámos finalmente, no centro da cidade.
A Estação Central, acabava de engolir o monstro de ferro.
Desço dois degraus. Olho à volta e grito para dentro:
- Bom Dia Amesterdão!

2 de outubro de 2007

Au revoir Paris


Naquela noite, a movimentação de gente na Gare du Nord, em Paris, era fora do comum.
Cá fora, a neve fazia das suas e empurrava todos para locais quentes e abrigados.
As estações do metro estavam bem recheadas de pedintes, vagabundos e errantes, como eu. Palmilhei a gare, várias vezes, para a frente e para trás, na busca incessante duma cabine telefónica. Não pretendia telefonar, apenas abrigar-me e dormir num pequeno espaço, sem correntes de ar. Todas estavam ocupadas. Outros, pensaram como eu.
Sem nada para fazer e enregelado até ao tutano, continuei a percorrer aquele espaço, despido de tudo.
Apenas os “placards” pendurados em zonas estratégicas, convidavam a ir mais além. Comecei a lê-los e reparei que cada um convidava a um destino diferente.
Visite a Suécia! Visite a Escandinávia! Visite os fiordes da Noruega!
Tantas foram as vezes que li esses cartazes que, imediatamente, os meus olhos se encheram de aventura. Dirigi-me à bilheteira, retirei todo o dinheiro dos bolsos, pu-lo na bandeja circulatória do “guichet”e pedi: - quero um bilhete para Norte, até onde este dinheiro chegar.
O empregado, olhou-me com o desprezo que um qualquer louco merece. Contou o “poignon” e separando umas moedas para a esquerda e outras para a direita, foi-me dizendo:
- Você tem aqui 76 francos. O bilhete mais próximo deste dinheiro, custa 52 francos e dá até à fronteira da Dinamarca. O que quer fazer?
- Ok. Pode ser! Dê-me esse dinheiro, de bilhete!
Sem mais nada dizer, coloca o respectivo bilhete e os 24 francos sobrantes, na bandeja, fazendo-a rodar para o meu lado, como que ignorando o acto dum louco.
O dinheiro servia para o que servia. Não me importava que o não tivesse. A incerteza de imaginar que algo me aconteceria por não ter um cêntimo, era igual à de saber que tinha uns francos e quando acabassem estaria no ponto de partida. Logo, era igual ter ou não ter dinheiro, a menos que fosse muito. Apenas adiava a sobrevivência.
Eram seis horas da manhã quando me despedi de Paris, ao som do siflar daquele paquiderme de ferro.
A saudade já me atormentava.
Não resisti a olhar para trás, metendo a cabeça fora da janela.
Respirei o ar pesado da gare e parti, olhando a urbe a despertar.

1 de outubro de 2007

Nasceu um soldado

A tropa não foi talhada para mim. Nem qualquer outro serviço militarizado.
Há regras que eu gosto de quebrar. Logo, nunca seria esse o meu caminho.
Uma semana depois de nela ter entrado, foi pedido a quem quisesse colaborar no jornal da caserna, que se inscrevesse na secretaria.
Vendo ali uma forma de me baldar, inscrevi-me.
Após alguma troca de impressões com o alferes coordenador da feitura do jornal, este convidou-me a escrever uma espécie de editorial, para ser publicado na primeira página, descrevendo qual o sentimento duma mudança tão extrema como aquela - passar de civil a militar.
Ao fim duns dias estavam prontas as seis páginas do jornal. Além do editorial, também escrevi um conto. Dois artigos no primeiro jornal, davam-me a esperança dalgumas benesses.
O alferes Parracho era um baril. Mas era também responsável por aquilo que eu escrevesse.
No dia em que o jornal saiu, fomos ambos chamados ao comandante. A mim, foram pedidas explicações sobre o conteúdo do editorial. Ao alferes, o porquê de haver autorizado.
Nunca mais me deixaram escrever. Apenas porque as três últimas frases do meu texto eram:
- Morreu um homem! Nasceu um soldado! Aleluia!!!

29 de setembro de 2007

Rui Salvador - Parabéns 42


O Rui é um rebelde da nova vaga.
Justiceiro, quanto baste, não aceita injustiças e vai à luta, pagando o preço que isso custa. Às vezes … é elevado!
O Rui, não pertence à minha geração, mas já faz parte dela, pela cumplicidade demonstrada e pelos amigos comuns doutros tempos.
O Rui entrou no grupo dos meus amigos, porque quis beber as nossas estórias e aprender com elas.
Também ele tem muito para ensinar.
O Rui é Sociólogo e Sargento da Marinha.
Não sei qual foi a tese que defendeu, quando se formou, mas se fosse hoje recomendar-lhe-ia dois temas:
O Bom, o Mau e o Vilão, ou, Como Chupar um Pudim.
O meu amigo Rui Salvador, chegou ao meio da vida.
O resto – vai valer a pena!
Parabéns Rui!!!

27 de setembro de 2007

Chupar o pudim


O Rui Salvador, mandou-me um mail sobre o Ricardo Araújo Pereira e isso fez-me lembrar que, em 1975 …

Foi assim, nesta figura, que um dia entrei com o meu grupo na Cervejaria Algo – na Av de Roma, em Lisboa e perguntei ao empregado, se tinha pudins em copo de alumínio.
Este respondeu que sim. Mediante tal constatação, disse-lhe para trazer todos os pudins que tivesse.
Deviam ser p’raí nuns cinquenta – os pudins. Eram p’raí uns seis ou sete - os meus amigos.
A brincadeira era entornar o pudim no prato e depois chupá-lo inteiro, sem o estragar.
Depois de chupado, tinha de ser vomitado inteirinho no prato e voltar a engoli-lo.
Ganhava quem comesse mais pudins e quem mais vezes o vomitasse inteiro.
O Gigi-Bicho estava a ganhar. Já tinha comido e vomitado o pudim vinte e sete vezes. Mas … descuidou-se e quando olhou para o lado, o Mula, numa voracidade e rapidez felina, chupou-lhe o pudim, já tantas vezes chupado e vomitado, e comeu-o.
O Gigi perdeu e teve de pagar a rodada.

26 de setembro de 2007

Maria - simplesmente


A Maria não é de modas!
A Maria está na moda!
Salta, pula, brinca, pinta.
A Maria é uma mulher com netos, uma criança com filhos.
A simplesmente Maria, que afinal é Zé, vai expôr as suas pinturas no próximo sábado, dia 29, nas Caldas da Rainha.
Maria muita, Maria pouca, Maria louca
Maria paz ... Maria tanto faz!
Já pedi desculpa pelo plágio.
Estarei contigo em pensamento, nessa promissora manhã.
Maria, a mulher que as flores amam!

25 de setembro de 2007

Marcel Marceau - Morreu o silêncio


Morreu o maior mímico do mundo.
Marceau dizia tudo, sem nada falar.
Hoje, digo tudo, sem nada dizer.
Morreu o silêncio!
Requiem pour n’importe qui!

24 de setembro de 2007

António Gualdino




Encontrei há dias o meu amigo António.
Estivemos cerca de meia hora a recordar aquelas coisas que aqui falamos constantemente.
Pois bem! O António tem andado a saltitar nas várias estações de TV, sempre na senda de espectáculos para crianças.
Grande actor, mais tarde director e actualmente encenador, o António dirige o Teatro da Lanterna Mágica.
Carlos Alberto Vidal, o Avô Cantigas, também faz parte do elenco.
Falámos dos que já não se lembram uns dos outros. Falámos dos tempos da SFRAA. Falámos do Teatro de Carnide. Falámos do Júlio, do Xico Luís e do Xico Zé.
E falámos da vida, que transforma o homem triste em palhaço alegre.
Numa altura em que os espectáculos para crianças não abundam, tiro o meu chapéu ao esforço, tenacidade e dedicação ao esquecido público juvenil.
Aqui vai a foto que te tirei há 30 anos, quando ainda estavas no berço do palco, julgo que, na peça “O Pagador de Promessas”
Um abraço para ti Tó Zé!

23 de setembro de 2007

Bretagne et Normandie




O sonho comanda a vida e às vezes, comanda o sono.
A noite passada, sonhei em francês.
Os megalitos libertavam forças estranhas e a Mancha cheirava a prado.
Carnac, apontava-me o caminho da sabedoria.
O Mont St Michel era invadido por crustáceos.
Os normandos e os bretões, não eram mais franceses.
Deauville era a capital do mundo.
Deitei-me pagem. Acordei mosqueteiro.
Douce France …!!!
Às vezes, sonho contigo!

21 de setembro de 2007

O meu avô Rato


Na vida, só damos valor às coisas, depois de mortas, perdidas, desaparecidas, alienadas.
Nunca tive bem a noção do que seria o amor deste meu avô, já que viveu os seus últimos anos, a olhar para as coisas que quase já não via.
Como a minha avó materna foi o meu grande amor, não tive a noção do que seria amar este rude avô Rato.
Kim Kim, não perdia uma oportunidade para brincar e judiar o velhote (como tenho remorsos disso!!!)
Então um dia … a minha mãe apanhou-o a beber pelo garrafão.
De imediato ralhou com ele e disse-lhe: 

- O pai não tem vergonha? A beber pelo garrafão? E ainda por cima isso é petróleo!
O avô, tirou o garrafão da boca e na maior das calmas, activou as papilas gustativas. Saboreou o gosto que tinha na boca e em ar de desprezo, colocou o garrafão no chão e falou baixinho: 

- Parece que sim. Parece que sabe a petróleo!
Claro que tudo ficou na mesma e nem precisou de nenhuma lavagem ao estômago. Ali tudo desaparecia, sem nada danificar.
Sabendo isto (talvez por volta de 1975), decidi pregar-lhe uma partida e ... a Rádio Renascença abriu o noticiário, informando numa linguagem que ele percebesse mais ou menos isto:
- Atenção, atenção, na povoação de Atalaia do Campo (onde ele passou toda a vida) vive o Sr. Domingos Eusébio. Este senhor, que vai comemorar oitenta anos de vida, convida todos os seus amigos a estarem presentes no seu aniversário, para o qual já adquiriu uma pipa de 500 litros de vinho e fez um pedido especial para que o seu amigo Domingos Lopes (Rato) não falte a este almoço.
O meu avô não gostava muito de vinho. Raramente bebia mais de cinco litros por dia. Nesta fase até já tinha acalmado um pouco.
Como ele não percebesse a noticia eu voltava a carregar no botão respectivo do gravador e repetia a noticia. Até que percebeu o que acabara de ouvir.
- O quê? O meu amigo Domingos Eusébio, tem lá uma pipa para abrir? Quero ir já para a terra!Não mais parou. Entrou numa excitação enorme e não se calava.
Com a maior calma do mundo, lá lhe expliquei que, beber lá ou beber cá, era a mesma coisa.
- Nem pensar! Quero ir já embora!Como não o conseguissemos segurar, mostrei-lhe o rádio, que era afinal um gravador, carreguei no REC e comecei a gravar ao mesmo tempo que dizia:
- Oh avô, isto é uma brincadeira. Fui eu que fiz a notícia para mangar consigo. E para lhe provar que estou a falar a sério, estou a gravar esta conversa para você ouvir.
Meio desconfiado e enquanto eu continuava a gravar, vociferava: 

- Puta que pariu o rapaz, que é um aldrabão do catano! És um mentiroso!- Pronto avô, não diga mais nada! Oiça esta nossa conversa que acabei de gravar!
Com os olhos esbugalhados, tentando ouvir o que mal via, começa a ouvir a gravação que entretanto quase lhe encostei ao ouvido. Quando chegou a altura de ouvir “és um mentiroso” encostou a boca ao gravador e em tom elevado berrou: 

- Pois és”! Pois és! És um grande mentiroso!E ficou à espera que o gravador lhe respondesse. Como este ficasse mudo, pois eu escangalhava-me a rir, abandonou a sala praguejando a gaguejar:
- O caaa... tano doooo raaa...paz tttttem ca...ca... cada iiii...deia!!!
- O catano do rapaz, tem cada ideia!!!

19 de setembro de 2007

Joaquim Cachaço




O meu amigo Joaquim Cachaço, tem algumas parecenças comigo.
Também é Quim. Tem uma paciência de santo. Dá-se bem com toda a gente. E … adora jogar à bola.
Aqui, temos uma pequena diferença – ele é bom jogador e eu não. Apesar de não me passar a bola, perdoo-lhe porque ele diz que um avançado está lá para marcar golos, não para passar bolas.
Jogou alguns anos no Estrela da Amadora e nessa altura eu chamava-lhe, Marlon Brandão, porque era parecido com um avançado do Sporting, com uma farta cabeleira, como a sua.
Fizemos grandes jogatanas e sofremos com algumas derrotas, mas isso já lá vai!
Profissionalmente, o Cachaço é docente, e todos os seus alunos, nele encontram um amigo.
É duma educação inusual.
É um amigo, a quem há muito agradeço ser meu amigo.
O Cachaço semeou um filho – O André - com quem troco dissertações sociais e humanas. A Filosofia, controla-lhe os dias.
Meu velho amigo, sportinguista ferrenho, precisava de te dizer, o quanto gosto de ti!

18 de setembro de 2007

O meu Honda Accord


Dois dias depois, de haver adquirido esta bonita viatura, participei numa corrida de automóveis, meio a sério meio a brincar no Autódromo do Estoril.
Desejoso de mostrar as capacidades que julgava ter e com um carro novinho nas mãos, esqueci-me de ler atentamente o regulamento e cheguei à meta antes de tempo. Não podia circular a mais de 140 Kms h. Fui desclassificado!
Ficou a experiência e a recordação deste bonito automóvel que durante 20 anos foi a minha paixão.
Altamente evoluído para a época (1981), estofos de veludo, painel já meio computorizado e mais umas mariquices, faziam dele o meu brinquedo preferido.
Era lindo o meu Honda Accord.
Farto de o ver definhar estacionado à porta de casa acabei por oferecê-lo a um coleccionador.
Adeus amigo! Aqui virei recordar-te, quando a saudade me lembrar de ti!

16 de setembro de 2007

Parabéns Ana - 33 anos!




Era uma vez uma menina. Lutadora! Sagaz! Ambiciosa! Inteligente! E Linda!
Cresceu e quis ser a melhor entre as melhores. E foi!
O mundo chamou-a, disputando-lhe os neurónios para gerir quantias com muitos zeros.
O seu talento tornou-a na mais jovem directora de sempre, na empresa onde trabalha, nos Estados Unidos - uma das maiores do mundo.
Ela é um mar de serenidade. As palavras brotam dos seus lábios, com a calmaria de ondas adormecidas.
Por causa dela, estreitaram-se os continentes e Nova York atravessou-se na minha vida.
Por causa dela, o Bruno fechou a Caixa de Pandora e espiritualizou a ansiedade.
É a Ana! A menina bonita de olhar distante!
Não esquecerei nunca, o momento do primeiro clik entre eles, há muitos anos, quando o Bruno lhe pediu um dia numa aula, para não se mexer pois queria desenhá-la. Quando acabou, ansiosa por ver o seu desenho, tirou-lho da mão e nele estava desenhada apenas, uma flor!
Numa foto que deu ao Bruno, quando ainda eram amigos, ela escreveu, – Recordação da tua grande amiga Ana, futura esposa e mãe dos teus filhos – Ana Tavares, 22 de Maio de 1992. Acertou!
É ela, a Ana! A menina bonita de olhar distante!
Ana – um talento que a pátria lusa desperdiçou!
Aos progenitores, nomeadamente à Sissi e aos avós António e Conceição, os meus parabéns pelos genes transmitidos.
Parabéns minha querida! Tens tudo aquilo que gosto! Até o nome de minha mãe!
Enche-me esse copo e bebe um gole por mim, com o teu ex-amigo, hoje marido!
Parabéns Ana!

14 de setembro de 2007

Bruno - Art Gallery - New York








A calmaria e a paz de espírito, ajudaram o Bruno a concentrar-se mais na pintura.
Aqui deixo alguns das suas última obras, já pintadas em Nova York, e que para já, estão expostas nas paredes da sua casa.
É um total de mais de uma dezena de quadros, quase todos de grande dimensão.
Depois do sucesso das exposições em Lisboa, o mesmo acontecerá um dia em NY.

12 de setembro de 2007

O Engenheiro

Algures, num país que já não lembro qual, comprei um dia um telefone, aparentemente diferente de todos os outros que havia em Portugal.
Acontecia quase sempre após eu ter viajado, receber a visita dum cunhado meu, para trocarmos impressões sobre o país visitado.
Estávamos nos finais dos anos setenta.
Num desses dias, falei-lhe dum aparelho extraordinário que tinha comprado – um telefone!
Era apenas um telefone portátil de teclas, que cabia na palma da mão, normalíssimo nos dias de hoje
Disse-lhe então:
- Já conheces este telefone inteligente, que comprei lá fora? E mostrei-lho!
- Que giro! Não conhecia! E isto faz mesmo chamadas?
- Claro que faz! Se tens dúvidas experimenta!
- Então e porque é que é inteligente? – pergunta ele.
- Porque, basta tu pensares num número, carregares numa tecla e ele liga para o número que estiveres a pensar.
- Não acredito!
- Não acreditas? Então que raio de engenheiro de máquinas és tu, que não estás a par das novas tecnologias?
- É pá, um gajo não pode saber tudo! Você anda sempre por aí, é pois natural que conheça coisas que eu desconheço!
- Tens razão! Então, se quiseres, podes experimentar o telefone! Pensa num número e carrega nesta tecla.
Meio desconfiado, pegou no telefone, olhou para o tecto com ar pensativo. Calmamente, como se estivesse a carregar no botão que detona a bomba atómica, seguiu as minhas instruções, levou o aparelho ao ouvido e ficou à espera.
Do outro lado do fio, responde a mãe dele, minha sogra.
- Estou sim!
- Mãe? É a mãe? Nem quero acreditar!
- O quê? Pergunta a mãe.
- Oh mãe, o Joaquim tem aqui um telefone fantástico. Basta pensarmos num número, que ele faz a chamada sozinho!
Do lado de lá, D.Clotilde não percebia nada do que o filho falava.
- Tá bem, a gente depois fala!
O engenheiro, desligou o telefone e foi para a janela pasmar.
A tecla, onde lhe mandei carregar, era apenas a tecla da memória. Liga para o último número que chamámos.
Calculando que ele pensaria no telefone de sua casa, antes de lhe pregar a partida, marquei esse número e desliguei.
Obviamente que, quando alguém carregasse naquela tecla, ligaria aquele número, que estava memorizado.

Foi o que ele fez.
Arrisquei! Ganhei!
Só eu o sabia! Eu e todos os engenheiros bem informados!

11 de setembro de 2007

Encontro com ninguém


Estava a pensar, no próximo sábado dia 15 fazermos uma “almoçarada” igual à da foto, lá para os lados de Alfama.
O Bicho conhece “bué” de tascas simpáticas.
Quem quiser aparecer – que fale agora ou se cale para sempre (é isto que se diz na cerimónia do casamento).
Mas … há mais marés que marinheiros!

9 de setembro de 2007

Parabéns Aniana - 27

Às vezes - visto a camisola de fim de semana e abraço-a

Tive um dia uma paixoneta!
Chamava-se Ana! Ani - para os amigos.
A paixão passou. Ficou o nome - aquele que eu considero, o mais lindo nome de mulher.
Uns anos depois, fui pai duma linda gorda menina.
Chamei-lhe Aniana.
Hoje, vinte e sete anos depois, olheia-a e beijei-a como no primeiro dia.
Há momentos, que um pai precisa de embalar a sua menina.
Parabéns Aniana! Parabéns filha!

7 de setembro de 2007

Ti Zé Bráz

Raul, no meu escritório, a autografar a fotografia acima publicada

Há dias, quando visitei as minhas origens, a minha amiga Adelaide Carvalho, douta vereadora da Câmara Municipal do Fundão, e o marido, Fernando Bráz, estes, levaram-me a conhecer a aldeia do Fernando – Sobral de S. Miguel, situada na encosta da Serra da Estrela.
Por ser uma zona que me toca profundamente, já que cresci numa pequena povoação ali bem perto, Barroca Grande - Minas da Panasqueira, e nasci noutra – Atalaia do Campo - logo aceitei o convite.
Uma vez ali chegados, logo fiquei deslumbrado com a maravilhosa aldeia, qual presépio escondido.
Depois, a simpatia e os petiscos oferecidos pelo Ti Zé Brás e pela Ti Piedade, pais do Fernando, fizeram o resto e aguçaram-me a gula.
Em determinada altura, e sabendo da minha amizade com determinada pessoa, Adelaide vira-se para o seu sogro e diz-lhe:
- Oh Ti Zé, você sabe que este senhor é amigo do seu grande ídolo, Raul Solnado?
- O quê? Vossemecê é amigo do Sr. Raul Solnado? – perguntou incrédulo o Ti Zé.
- Sou sim senhor, respondi eu.
- Sabe, o Sr. Raul Solnado, é um rapaz, mais ou menos da minha idade, e é o artista que eu mais admiro. Desde sempre! Então vou-lhe pedir um favor – continua Ti Zé Bráz, com voz calma e ponderada – Quando estiver com ele dá-lhe um grande abraço meu?
Fiquei atónito! Aquele pedido, com forte sotaque beirão, saíra-lhe do fundo da alma.
- Dou sim senhor – respondi-lhe.
Durante o resto da visita, não mais deixei de pensar na forma como me foi feito o pedido.
Quando deles me despedi e já dentro do carro, ainda chegou perto de mim e com ar enternecido insiste:
- Sr. Joaquim, não se esquece de dar o meu abraço ao Sr. Raul Solnado? Mas olhe, diga-lhe que fui eu que mandei!
Lindo, Ti Zé. Foi lindo!
Está dado o seu recado e o Sr. Raul Solnado, devolve-lhe esse abraço tão sentido.
Obrigado Raul! O Ti Zé merecia isto.

5 de setembro de 2007

Mao Tsé Tung - o livro vermelho







Decorria o ano de 1966.
Em Portugal, eu estava na Revista Tempo e o Modo, onde não tinha qualquer responsabilidade editorial nem estava suficientemente politizado para o grito da revolta. Apenas sabia que algo tinha de mudar.
O livro vermelho de Mao Tsé Tung, era o livro mais proibido do planeta. Era impossível obtê-lo. Quem o conseguisse, tinha meio caminho andado para as masmorras de Peniche.
Agora em Nova York, o Bruno adquiriu-o, na versão inglesa, publicado na altura, simultaneamente em chinês e inglês.
Uma verdadeira raridade!
Aos meus amigos mais esclarecidos, aqui deixo esta homenagem.
Para mim, isto é chinês!

3 de setembro de 2007

Parabéns Henedino - 55







Este estranho nome, pertence a um puto porreiro, da minha idade.

Meu velho amigo!
O tempo das “chinchadas” já lá vai.
Algumas das mãos que te aplaudiram, quando eras Mister Boca de Sino, ainda te cumprimentam em Janeiro de cada ano. Muitos não souberam que essa eleição era para o adolescente mais charmoso, o que ainda hoje se nota.
Os cabelos já grisalhos, denotam que estás quase a apanhar-me nos anos da vida. No entanto, julgo que terás alguma dificuldade em consegui-lo.
A tua grande capacidade empresarial, levou-te ao seio dos eleitos e auguro que por lá te mantenhas enquanto as forças durarem.
Não te esquecemos. E sei que falo por todos.
Parabéns Senhor Presidente! Parabéns D.Lurdes!
Este maravilhoso filho, seguiu as pisadas que lhe ensinaram, fazendo a triagem das ervas daninhas.
Parabéns Júnior! Parabéns Henedino!

2 de setembro de 2007

Acabou a Volta


Pois! Por agora acabaram-se as voltas.
O fotociclista pode estar descansado que não lhe vou usurpar o epíteto.
É sempre bom voltar a casa.
O melhor duma viagem é o regresso.
Tudo passa a correr. Aproveitemos a vida enquanto pudermos, caso contrário, deitar-nos-emos novos e acordaremos velhos.
Foi bom, Bruno! Foi óptimo, Ana!
Thanks