
Há vinte anos atrás eu tinha trinta e cinco.
O Fernando, cinquenta. O Artur, quarenta e dois e o António trinta e sete.
Era o mês de Maio.
Para não destoar - tem de haver sempre um motivo - desafiei estes amigos a conhecerem, à minha maneira, outras terras, outras gentes.
O novo Mercedes do Fernando, dava-nos a certeza que poderíamos ir longe e sem percalços.
Os quatro, tínhamos comuns interesses comerciais, sem no entanto, haver grandes laços de amizade.
Vai daí, ei-los que partem, com a certeza de que parariam onde calhasse, dormiriam onde Deus quisesse e comeriam o que o diabo se lembrasse, ou a bolsa pudesse pagar.
Destino – algo incerto na Europa.
Passei toda viagem a contorcer-me de riso, pelas caricatas situações que os meus comparsas, me iam proporcionando, umas vezes, pelo ridículo, outras pela ignorância das coisas e outras ainda, pela perfídia que o meu maquiavélico cérebro congeminava.
É que, há coisa que só acontecem aos outros, mas, nem sempre é assim.
Tínhamos saído de St Tropez e seguíamos para Cannes.
Eu seguia no lugar do pendura. Guiava o Fernando. Mexia e remexia no auto-rádio. Começava a ficar impaciente de tanto nele mexericar, na esperança de encontrar uma estação de rádio portuguesa, quando eu lhe disse:
-Deixe estar, que eu procuro.
- Anuiu e cedeu-me a sua impaciência.
Fui rodando o botão, à esquerda e à direita. Após alguns minutos de fingidas tentativas e sem que ninguém percebesse, introduzi uma cassete no leitor.
Finalmente tínhamos notícias de Portugal. Acertámos em cheio, estava a dar o noticiário.
Este ano foi batido o recorde de visitantes no Feira de Santarém… blá, blá blá
Também o festival do marisco em Loulé, excedeu as expectativas, blá, blá, blá.
Por último - Totoloto – apenas um apostador acertou nos seis números mágicos. 132.000 contos, é quanto vai receber o felizardo do jackpot desta semana. O sortudo de seu nome Fernando A… G...
Com os olhos esbugalhados e meio incrédulo, tira uma mão do volante e dá-me uma palmada surda no ombro, fazendo a viatura ziguezaguear, felizmente sem consequências e grita: - deixem ouvir, deixem ouvir!
- A Antena Um, está a tentar contactar o feliz contemplado, não tendo até ao momento sido possível fazê-lo, em virtude do mesmo se encontrar ausente no estrangeiro, acompanhado por uns amigos.
- Sou eu, sou eu!!! C’um caraças, eu já estava remediado, mas agora fico bem! Logo à noite, vou telefonar à família - disse o Fernando, completamente eufórico.
É sensacional, aqui em França, ouvir o meu nome na rádio
- murmurava para ninguém. - nem quero acreditar!
Para comemorar, vamos jantar uma mariscada regada com champagne.
Nós, os outros três, já estávamos a ganhar alguma coisa com a sorte do Fernando.
Os rostos do Artur e do António, adivinhavam-se incrédulos e circunspectos.
Fernando, estava recheado de dólares arrancados ao saco plástico da terra arenosa do seu quintal. Emprestou uma quantidade razoável a cada um de nós e nessa noite fomos obrigados a jogar uma “lerpada” com notas a cheirar a húmus.
Escudos, era coisa de pobres.
Difícil, foi chegar a madrugada.
Na manhã seguinte
- Tá lá? Tina? Sou eu, o Fernando. Então há novidades?
- Hã??? Novidades??? Tu é que deves ter novidades - respondeu a mulher.
- Então o jackpot desta semana, saiu a alguém?
- Sei lá, parece que saiu a um gajo qualquer, porquê?
Fernando cofia o cabelo, faz um esgar de dúvida tapando o bocal do telefone e segreda-nos: - ela não me quer dizer, para eu não começar já a gastar a “massa”!
- Tá bem pronto. Olha, agora vou telefonar ao nosso filho, Um beijinho, adeus.
- Tá, filho? Olá, é o pai! Sim, por aqui está tudo a correr bem! Não, não há problema nenhum, mas estávamos aqui a pensar a quem teria saído o totoloto, esta semana.
- Olha pai, saiu a dois gajos. Tiveram uma “vaca” do caraças. Tanta bagalhoça só pra dois!
- Vá lá filho, diz a verdade. Saiu-me a mim, não foi?
O filho começou a rir e sempre foi dizendo: - não foi nada a si que saiu, pai! Quando cá chegar, vai ver!
Fernando era um poço de nervos. As dúvidas eram muitas, as certezas, apenas as ouvidas no noticiário.
Deixou ainda escapar: - Está tudo mal combinado. A minha mulher diz que o totoloto, saiu a um; o meu filho, diz que saiu a dois. Eles não me querem dizer.
- Calma aí - diz o Artur. - Nós os quatro jogamos todas as semanas um totoloto à sociedade, por acaso em nome do Fernando e nada me diz que o prémio não seja nosso. Se a sua família diz, que não lhe saiu nada, é porque foi então a nós que saiu.
Estava instalada a confusão.
É meu, é teu, é nosso. Grande pandemónio!
Eu ria, ria, ria. - De que ri você? - Pergunta o António. – É dos nervos! É que eu também acho que o prémio é nosso e não consigo controlar-me - respondi.
Eu, continuava a comportar-me como se os milhões fossem nossos e alvitrei.
- Vamos, mas é telefonar pró meu escritório e perguntar à Madalena, pois é ela que preenche o nosso totoloto!
Comecei a ficar apreensivo e fui atirando achas para a fogueira. – É pá, eu acho que devíamos, cada um, dar 1.000 contos às miúdas lá do escritório!
Fernando deixou logo ali cair em saco roto, a minha estapafúrdia ideia. – Olha este! Você faça contas com o seu dinheiro e deixe lá o dos outros!
Fernando, já começara a acreditar que o dinheiro era nosso, não dele.
Eu, já não tinha mais lágrimas. O riso exagerado, havia-as todas consumido.
Do escritório, informaram não termos sido nós os contemplados.
Ninguém entendia como fora possível ter ouvido aquela notícia na rádio.
E assim foi sendo, durante mais cinco dias, de incertezas mais que muitas. O que se passou nesses dias, só por si, daria para escrever um best-seller.
Deitavam-se, sonhavam e acordavam a falar do totoloto.
Comecei a ter pena de mim. Um rico, pobre homem.
Ao regressarmos a Portugal, parámos na Guarda para jantar. A medo - Fernando ainda acreditava - perguntou ao estalajadeiro: - Amigo, o jackpot do totoloto, saiu a quantos? – A um! - Respondeu o homem.
– A esperança, reacendeu-se, teria pensado ele.
Alguma horas depois, já em Lisboa, cada um tomou seu rumo, cogitando, nas voltas que a vida dá.
Uns meses mais tarde - não perceberam como - mas souberam ter sido uma brincadeira minha.
Ter-me-ão perdoado?
Uma cassete, previamente gravada, tinha conseguido fazer com que aqueles homens não acreditassem em bruxas, mas … pero que las hay, hay.