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Quero morrer aqui ao som do cravo razoavelmente temperado (pelo qual ando ultimamente apaixonado). De barba aparada e bigode proeminente, garrafa numa mão e charuto na outra, protegido por Teutates e Taranis de Lucano e a rir-me para Lug:
- Ah, ah, ah… para ti
Sou uma tragédia
...
(eu para ela em surdina, entre dois goles com a voz arrastada e já sem fôlego a sussurrar-lhe aquilo que sempre lhe quis dizer); isso, aproximem-se:
- O teu namorado…
- Sim
- O Grego…
- Diz
- … era um parvo do caralho
(é. Os brutos não sabem falar)
E ouvir o bater do coração. O correr em direcção à porta, o fechar com estrondo e os soluços:
- Não vás para aí
(Aplausos)
Sim, vá, digam lá:
- És uma tragédia
- Eu sei
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Quero morrer aqui. Ao som das suites para violoncelo de Bach. À meia-luz. Ao sabor de um vintage Trinidad. De fato e gravata. De sapatos por medida calçados. De echarpe e sobretudo de caxemira, de luvas e chapéu. Pronto para a noite de estreia. Pronto para o primeiro dia:
«O mio bambino caro…»
- Voltaste
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Quero morrer aqui. Cabeça, tronco e membros. Morte completa. Olhos, ouvidos e boca voltados para o Böcklin aos pés da cama. Aquele da ilha dos mortos. O melhor que já vi. Vá, digam lá:
- És uma tragédia
- Eu sei
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Quero morrer aqui. Cama de pé alto. Dossel acetinado. Em silêncio. Com o Auto da Barca do inferno à cabeceira. O tolo que me queria tornar, que esse não vai para onde eu vou:
“Welcome to hell, we buy, we sell”
- O senhor, por aqui
….
- És uma tragédia
- É verdade
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Quero morrer aqui. De máscara nos genitais. Traços faciais distorcidos. Abstracto. Com Valium e Zoldipem. Qualquer ser pelo qual se tenha uma ideia abstracta só poderá existir de forma abstracta. Ha,ha…, tem graça:
- O quê
- És uma tragédia
- Pois sou
E para os outros, para aqueles que me quiserem seguir: evitem abrir a porta à minha direita, pois uma vez aberta:
«Lasciate ogni speranza, voi che entrate» *
*Perdei toda a esperança, vós que entrais
do Pórtico do Inferno
in: A Divina Comédia; Dante Alighieri

























